conferiu se o gás estava fechado conferiu porta por porta janela por janela se estavam trancadas correu pelo corredor e piscava piscava piscava piscava piscava precisava parar de piscar de piscar de piscar correu pelo corredor estava nervoso piscava piscava sentou levantou sentou levantou sentou piscava piscava piscava fechou os olhos e então começou a ranger os dentes levou a mão à boca precisava parar queria parar começou a roer uma unha duas unhas queria parar precisava parar três unhas quatro cinco seis queria parar sete oito precisava parar nove dez abriu os olhos levantou sentou levantou sentou levantou correu pelo corredor entrou no banheiro lavou o rosto e as mãos e as mãos e as mãos e as mãos e lavou as mãos correu pelo corredor abriu a gaveta fechou abriu fechou abriu a gaveta bagunçou e arrumou as meias as cuecas por ordem de cor abriu o guarda-roupa fechou abriu fechou abriu o guarda-roupa misturou e organizou as roupas os sapatos por estação correu pelo coredor foi até o armário arrumou os alimentos por ordem de validade os produtos de limpeza por ordem de tamanho correu pelo corredor trocou os quadros de lugar destrocou trocou e destrocou os quadros de lugar conferiu se o gás estava fechado conferiu porta por porta janela por janela se estavam trancadas esgotado parou em frente ao espelho respirou profundamente e frente a frente com a própria imagem percebeu que estava diferente leve tranquilo aquele reflexo era de alguém que podia e tinha controle sobre si mesmo caminhou pelo corredor lentamente sentou piscando normalmente olhou para as mãos limpas passou as mãos pelo rosto vagarozamente acariciou os cabelos carinhosamente e sorrindo arrancou o primeiro fio de cabelo
Isaac Ruy
26 Fevereiro 2012
02 Fevereiro 2012
Pequenas histórias
Pequena história sobre o homem que apesar de não fumar disse à esposa debruçada na janela que ia até a venda comprar cigarros...
Saiu de casa no crepúsculo
e nunca mais voltou.
Pequena história sobre a esposa do homem que apesar de não fumar disse que ia até a venda comprar cigarros e nunca mais voltou...
Ainda o espera debruçada na janela
fumando um maço por noite
Isaac Ruy
25 Janeiro 2012
Viúva negra
Depois de matar o oitavo marido foi às compras.
Não por raiva, ciúmes, vingança ou falta de amor.
Nada disso.
É que preto lhe caía muito bem.23 Janeiro 2012
Pas de deux
A bailarina, desiludida,
apertou o corpete novo, escolheu o mais belo tutu, vestiu a meia, prendeu o cabelo num coque apertado, se maqueou, colocou a sapatilha de ponta, deu um laço em cada fita, passou a corda no pescoço
e deu sua última pirueta pendurada no ventilador de teto
- a pirueta mais longa de toda sua carreira.
Isaac Ruy
22 Janeiro 2012
PÓ
Bastou um sorriso.
Desfiz-me em pó
e (in)ventei-me pelo ar.
Leve, me espalhei por seus pelos e cabelos:
leve-me, agora sou teu.
adentrar suas intimidades
antes que a chuva nos separe
e eu escorra
- solitário -
por seu corpo molhado
de volta ao barro da criação.
Isaac Ruy
02 Janeiro 2012
Meu Deus!
Ali:
trabalhando, comprando, comendo
- repetidamente e compulsivamente.
Concentrado, se divertindo
frente a TV
distraidamente...
Meu Deus!
é uma máquina.
Isaac Ruy
07 Dezembro 2011
Sociedade anônima
I
acordou no chão frio
com a boca amarga
e com a roupa suja
de vômito seco
pensou em quanto tempo
estava ali
mas deitou novamente
não importava
era só mais um dia
como qualquer outro
II
fumou o cigarro
sentado na privada
um vestígio de prazer
num dia difícil
para não desconfiarem
deu uma descarga
que levou junto
a bituca
e seus sonhos
de criança
III
aurora
juntou as latas de refrigerante
caixas de doces
garrafas de suco
embalagens de salgadinhos
amontoou no carrinho
e então fez sua primeira
e única
refeição do dia
crepúsculo
IV
penteou os cabelos
passou batom
rosa
sua cor preferida
colocou o vestido
rosa
seu preferido
e foi trocar sua infância
por dinheiro
na esquina mais próxima
V
passou o dia
na fila
gemendo
chorando
implorando uma chance
para aquela que
agora
dormia
no túmulo
de sua barriga
VI
noite de chuva
encontrou um canto seco
para deitar
se cobriu com o jornal
molhado
que estampava a notícia
da morte do amigo
queimado
os olhos abertos
também choviam
VII
atento
olhava a mãe e a criança
o modo como sorriam
o carinho que lhe era estranho
ausente
num ato de coragem
se aproximou
e levou a bolsa
para matar a fome
que lhe acariciava as entranhas
VIII
dividia o que tinha
com os amigos
naquela
noite
era uma lata
queimando crack
uma ponta de baseado
e um pouco de
tristeza
e abandono
IX
no semáforo
passava pelos carros
pedindo ajuda
por ser surdo-mudo
os motoristas
em solidariedade
se faziam
de cegos
protegidos pelos vidros fechados
e pelos óculos de sol
X
na calçada
as mãos
como pétalas
se abriam para pedir a esmola
os pés
cheios de feridas
espinhavam o olhar alheio
lhe garantiam a subsistência
e não saravam
graças a Deus
Isaac Ruy
29 Novembro 2011
Fluxo XI
olhou para os dois lados do corredor não viu ninguém pôde então sair da sala ainda que silenciosamente a passos curtos e leves esses sapatos fazem muito barulho tirou-os ninguém pode ouvir um ruído preciso ser discreta ou poderão desconfiar de algo guardou-os na bolsa que trazia ao lado passou pelas outras portas fechadas rapidamente para não ser surpreendida por ninguém que saísse para um café ou uma visita ao banheiro mas no fim do corredor sentiu um calafrio a última porta estava aberta justamente a porta onde o maior vigilante se escondia uma criminosa uma bandida todos gritarão se eu for pega se arrastou até o beiral enquanto os ouvidos atentos se aguçavam em busca de sons mínimos melhor voltar e desistir do delito mas um barulho a surpreendeu vindo da porta ao lado não pode pensar atravessou a sala da porta aberta que por sorte estava vazia e entrou na primeira porta que encontrou ali no escuro escutava as risadas dos que saiam e conversas dos que transitavam pelo corredor passou a noite no armário ao lado da sala do chefe para não ter que explicar a tentativa de sair 15 minutos mais cedo
Isaac Ruy
04 Novembro 2011
Top
Linda, nariz empinado, encarou as vitrines, não olhou para os preços, rica, olhar de modelo na passarela.
Elegante, batom e biquinho, desfilou pelo espelho, não olhou os defeitos, magra, rostinho de modelo de revista.
Sensual, lânguido rebolado, atravessou a avenida, não olhou para nada, fina, corpinho de modelo atropelada.
Isaac Ruy
24 Outubro 2011
Flores
A empregada atendeu à porta.
Quando adentrou a sala, com o enorme buquê a mão, recebeu um olhar rápido da patroa que abriu um enorme sorriso.
__É lindo "né", dona Gisela? - disse a empregada, também sorrindo.
__É, e me dê antes que estrague com suas mãos imundas - esbravejou a patroa, destruindo o sorriso da empregada e ocultando o próprio por alguns instantes.
__Me desculpe dona Gisela, eu só "tava" elogian...
__Pare de falar e vá buscar um vaso para colocar minhas flores.
A empregada saiu da sala com os olhos marejados enquanto a patroa olhava as flores com os olhos brilhantes.
Esperou a empregada voltar com o vaso antes de ler o cartão, fazia questão de ler em voz alta para colocá-la em seu lugar.
__Veja, Jandira - disse a patroa com um sorriso de superioridade - "Querida, essas flores nem se comparam à sua beleza, mas espero que sirvam para alegrar seu dia, de seu admirador secreto".
__Muito bonito, dona Gisela - sorriu a empregada.
__Você já recebeu flores assim, Jandira? - sorriu a patroa balançando o cartão enquanto a empregada em silêncio balançava a cabeça - Eu já imaginava... afinal uma empregada nunca rece... - o sorriso se desfez em olhos arregalados de susto mirando o cartão.
__O que aconteceu, dona Gisela? - perguntou, com um olhar desconfiado, a empregada.
__Nada, - sorriu a patroa - veja você mesma, só não vá sujar - disse, entregando o cartão à empregada.
A empregada olhou o cartão, sorriu humilhada e o devolveu à patroa.
__Muito bonito mesmo o que ele escreveu, dona Gisela, letra bonita... Agora vou terminar o jantar.
__Vai... - a patroa sorriu se abanando com o cartão até ver a empregada sumir na cozinha.
Assim que se encontrou sozinha rasgou o cartão e jogou no lixo. Não queria correr o risco de alguém ver que não era seu nome escrito no outro lado do cartão. Agora, tranquila, podia, realmente, sorrir aliviada - sabia que nem todos os empregados tinham olhos analfabetos como Jandira.
Isaac Ruy
17 Outubro 2011
Vitória muda
No quarto, deitada, ela o viu chegar e permanceu em silêncio.
Ele tentou se explicar, mas ela não disse uma palavra.
Muda, se virou e dormiu.
Ele passou a noite em claro.
Preferia quando ela gritava, ao menos parecia que ele tinha um pouco de razão.
O silêncio era um argumento impossível de contestar, rebater e questionar.
Ela sabia disso.
Isaac Ruy
Túmulo
Prometeu que sua boca seria um túmulo.
Mas só cumpriu a promessa depois que já estava enterrado.
01 Outubro 2011
Borderline
Era uma pessoa difícil, vivia cortando relações.
No fim, sozinha, só lhe restaram as cicatrizes.
Isaac Ruy30 Setembro 2011
Mãos vazias
Pegou toda sua dignidade e colocou na mesma mão que pedia a esmola.
Não lhe deram dinheiro e ainda lhe levaram a dignidade.
Foi para casa de mãos vazias.
Isaac Ruy
29 Setembro 2011
Compartilhe essa expressão #3
Precisa de mais tempo para cumprir todas as suas tarefas e compromissos?
Compartilhe essa expressão:
Isaac Ruy
23 Setembro 2011
11 Setembro 2011
09 Setembro 2011
05 Setembro 2011
oh, lepse...
este sou eu,
frente a etnerf
com a imagem do presente
analepse do que fui
prolepse do que serei
recordações
e projeções
encarar a si mesmo
não faz bem ao ego
nego
melhor seguirmos enganados
que encarar a realidade -
lindos
como
sempre
estamos apodrecendo
enquanto amaciamos a carne,
esticamos a pele
e maquiamos os vermes
a beleza está nos olhos de quem vê
tenho medo
prefiro não encarar
e se não estiver nos meus?
assim ao menos vou bonito,
imagino,
e que me esperem no fim da passarela
dessa
vida
bela
e se insistem em perguntar
como vai?
respondo sempre
muito bem, obrigado
melhor mentir
a encarar os cacos
de fato
me mato?
não
aguardo a morte chegar
sorrindo
com sua cara
que muito me agrada
de caveira
seca
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