22 março 2012

Desejo

Sempre disse que desejava morrer dormindo.
Dormiu no volante.
Morreu.

Isaac Ruy

15 março 2012

Divirta-se!

Clique sobre os quadrados musicais e divirta-se com sua composição!
Espaço para restart!

05 março 2012

Donadecasahipocondríaca

acordoucom
dordecabeça
levantoulabirintite
trêscapsulas
começoualimpeza
dobanheiro
refluxogastrite
esfregouchãoparede
artroseartrite
doiscomprimidos
limpouquartos
herniadedisco
salaevaranda
hipoglissemia
quarentagotas
lavouasroupas
brancasecoloridas
leveanemia
cincopílulas
passoudobrou
fortesinusite
escolheufeijão
asmabronquite
picouacarne
esquentouarroz 
oitocomprimidos
úlceranervosa
lavoucopos
arritmiatremedeira
noventagotasduaspílulas
secoupratos
capsulascoloridas
guardoutalheres
arrumougavetas
espasmosalucinação
comprimidospílulasgotas
fraquezacovulsão
morreucaída
entreaspanelas
depressão

Isaac Ruy

26 fevereiro 2012

Fluxo XII

conferiu se o gás estava fechado conferiu porta por porta janela por janela se estavam trancadas correu pelo corredor e piscava piscava piscava piscava piscava precisava parar de piscar de piscar de piscar correu pelo corredor estava nervoso piscava piscava sentou levantou sentou levantou sentou piscava piscava piscava fechou os olhos e então começou a ranger os dentes levou a mão à boca precisava parar queria parar começou a roer uma unha duas unhas queria parar precisava parar três unhas quatro cinco seis queria parar sete oito precisava parar nove dez abriu os olhos levantou sentou levantou sentou levantou correu pelo corredor entrou no banheiro lavou o rosto e as mãos e as mãos e as mãos e as mãos e lavou as mãos correu pelo corredor abriu a gaveta fechou abriu fechou abriu a gaveta bagunçou e arrumou as meias as cuecas por ordem de cor abriu o guarda-roupa fechou abriu fechou abriu o guarda-roupa misturou e organizou as roupas os sapatos por estação correu pelo corredor foi até o armário arrumou os alimentos por ordem de validade os produtos de limpeza por ordem de tamanho correu pelo corredor trocou os quadros de lugar destrocou trocou e destrocou os quadros de lugar conferiu se o gás estava fechado conferiu porta por porta janela por janela se estavam trancadas esgotado parou em frente ao espelho respirou profundamente e frente a frente com a própria imagem percebeu que estava diferente leve tranquilo aquele reflexo era de alguém que podia e tinha controle sobre si mesmo caminhou pelo corredor lentamente sentou piscando normalmente olhou para as mãos limpas passou as mãos pelo rosto vagarosamente acariciou os cabelos carinhosamente e sorrindo arrancou o primeiro fio de cabelo

Isaac Ruy

02 fevereiro 2012

Pequenas histórias


Pequena história sobre o homem que apesar de não fumar disse à esposa debruçada na janela que ia até a venda comprar cigarros...

Saiu de casa no crepúsculo
e nunca mais voltou.

Pequena história sobre a esposa do homem que apesar de não fumar disse que ia até a venda comprar cigarros e nunca mais voltou...


Ainda o espera debruçada na janela
fumando um maço por noite


Isaac Ruy


25 janeiro 2012

Viúva negra

Depois de matar o oitavo marido foi às compras.
Não por raiva, ciúmes, vingança ou falta de amor. 
Nada disso.
É que preto lhe caía muito bem.

Isaac Ruy

23 janeiro 2012

Pas de deux

A bailarina, desiludida,
apertou o corpete novo, escolheu o mais belo tutu, vestiu a meia, prendeu o cabelo num coque apertado, se maquiou, colocou a sapatilha de ponta, deu um laço em cada fita, passou a corda no pescoço
e deu sua última pirueta pendurada no ventilador de teto
- a pirueta mais longa de toda sua carreira.


Isaac Ruy



22 janeiro 2012

Bastou um sorriso.
Desfiz-me em pó
e (in)ventei-me pelo ar.
Leve, me espalhei por seus pelos e cabelos:
leve-me, agora sou teu.
Deixe-me sentir suas curvas, seu balanço,
adentrar suas intimidades
antes que a chuva nos separe
e eu escorra
- solitário -
por seu corpo molhado
de volta ao barro da criação.

Isaac Ruy

02 janeiro 2012

Meu Deus!

Ali:
trabalhando, comprando, comendo
- repetidamente e compulsivamente.
Concentrado, se divertindo
                                         frente a TV
distraidamente...
Meu Deus!
é uma máquina.

Isaac Ruy

07 dezembro 2011

Sociedade anônima



I
acordou no chão frio
com a boca amarga
e com a roupa suja
de vômito seco
pensou em quanto tempo 
estava ali
mas deitou novamente
não importava 
era só mais um dia 
como qualquer outro


II
fumou o cigarro
sentado na privada
um vestígio de prazer
num dia difícil
para não desconfiarem
deu uma descarga
que levou junto
a bituca
e seus sonhos
de criança


III
aurora
juntou as latas de refrigerante
caixas de doces
garrafas de suco
embalagens de salgadinhos
amontoou no carrinho
e então fez sua primeira
e única
refeição do dia
crepúsculo


IV
penteou os cabelos
passou batom
rosa
sua cor preferida
colocou o vestido
rosa
seu preferido
e foi trocar sua infância
por dinheiro
na esquina mais próxima


V
passou o dia
na fila
gemendo 
chorando
implorando uma chance
para aquela que 
agora
dormia 
no túmulo
de sua barriga


VI
noite de chuva
encontrou um canto seco
para deitar
se cobriu com o jornal
molhado
que estampava a notícia
da morte do amigo
queimado
os olhos abertos
também choviam


VII
atento
olhava a mãe e a criança
o modo como sorriam
o carinho que lhe era estranho
ausente
num ato de coragem
se aproximou 
e levou a bolsa 
para matar a fome
que lhe acariciava as entranhas


VIII
dividia o que tinha
com os amigos
naquela 
noite
era uma lata
queimando crack
uma ponta de baseado
e um pouco de
tristeza
e abandono


IX
no semáforo
passava pelos carros
pedindo ajuda 
por ser surdo-mudo
os motoristas
em solidariedade
se faziam
de cegos
protegidos pelos vidros fechados
e pelos óculos de sol

X
na calçada
as mãos
como pétalas
se abriam para pedir a esmola
os pés
cheios de feridas
espinhavam o olhar alheio
lhe garantiam a subsistência
e não saravam
graças a Deus


Isaac Ruy