conferiu se o gás estava fechado conferiu porta por porta janela por janela se estavam trancadas correu pelo corredor e piscava piscava piscava piscava piscava precisava parar de piscar de piscar de piscar correu pelo corredor estava nervoso piscava piscava sentou levantou sentou levantou sentou piscava piscava piscava fechou os olhos e então começou a ranger os dentes levou a mão à boca precisava parar queria parar começou a roer uma unha duas unhas queria parar precisava parar três unhas quatro cinco seis queria parar sete oito precisava parar nove dez abriu os olhos levantou sentou levantou sentou levantou correu pelo corredor entrou no banheiro lavou o rosto e as mãos e as mãos e as mãos e as mãos e lavou as mãos correu pelo corredor abriu a gaveta fechou abriu fechou abriu a gaveta bagunçou e arrumou as meias as cuecas por ordem de cor abriu o guarda-roupa fechou abriu fechou abriu o guarda-roupa misturou e organizou as roupas os sapatos por estação correu pelo corredor foi até o armário arrumou os alimentos por ordem de validade os produtos de limpeza por ordem de tamanho correu pelo corredor trocou os quadros de lugar destrocou trocou e destrocou os quadros de lugar conferiu se o gás estava fechado conferiu porta por porta janela por janela se estavam trancadas esgotado parou em frente ao espelho respirou profundamente e frente a frente com a própria imagem percebeu que estava diferente leve tranquilo aquele reflexo era de alguém que podia e tinha controle sobre si mesmo caminhou pelo corredor lentamente sentou piscando normalmente olhou para as mãos limpas passou as mãos pelo rosto vagarosamente acariciou os cabelos carinhosamente e sorrindo arrancou o primeiro fio de cabelo
apertou o corpete novo, escolheu o mais belo tutu, vestiu a meia, prendeu o cabelo num coque apertado, se maquiou, colocou a sapatilha de ponta, deu um laço em cada fita, passou a corda no pescoço
e deu sua última pirueta pendurada no ventilador de teto
I acordou no chão frio com a boca amarga e com a roupa suja de vômito seco pensou em quanto tempo estava ali mas deitou novamente não importava era só mais um dia como qualquer outro
II fumou o cigarro sentado na privada um vestígio de prazer num dia difícil para não desconfiarem deu uma descarga que levou junto a bituca e seus sonhos de criança
III aurora juntou as latas de refrigerante caixas de doces garrafas de suco embalagens de salgadinhos amontoou no carrinho e então fez sua primeira e única refeição do dia crepúsculo
IV penteou os cabelos passou batom rosa sua cor preferida colocou o vestido rosa seu preferido e foi trocar sua infância por dinheiro na esquina mais próxima
V passou o dia na fila gemendo chorando implorando uma chance para aquela que agora dormia no túmulo de sua barriga
VI noite de chuva encontrou um canto seco para deitar se cobriu com o jornal molhado que estampava a notícia da morte do amigo queimado os olhos abertos também choviam
VII atento olhava a mãe e a criança o modo como sorriam o carinho que lhe era estranho ausente num ato de coragem se aproximou e levou a bolsa para matar a fome que lhe acariciava as entranhas
VIII dividia o que tinha com os amigos naquela noite era uma lata queimando crack uma ponta de baseado e um pouco de tristeza e abandono
IX no semáforo passava pelos carros pedindo ajuda por ser surdo-mudo os motoristas em solidariedade se faziam de cegos protegidos pelos vidros fechados e pelos óculos de sol
X na calçada as mãos como pétalas se abriam para pedir a esmola os pés cheios de feridas espinhavam o olhar alheio lhe garantiam a subsistência e não saravam graças a Deus