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15 abril 2016

MACRO

Sozinha, no alto do viaduto, sentia o vento fraco embaraçar os cabelos que balançavam ao som das buzinas e motores dos carros que seguiam em manada abaixo de seus pés; sabia que pássaros silvavam, em algum lugar, ainda que o som da multidão no ponto de ônibus da esquina e os berros do vendedor ambulante de produtos importados impedissem que a melodia sibilante lhe chegasse aos ouvidos; a boca seca ainda trazia o gosto do último trago de cigarro com Coca-Cola e o ar cheirava a cidade, fumaça, urina e suor das seis da tarde. Então, olhando para baixo e reconhecendo sua própria insignificância, quase esquálida, diante da situação presente na imensidão urbana, escalou a grade de proteção até que sentisse a liberdade de não ter uma cela que a separasse do vazio, do nada; ela era o nada e o tudo naquele instante. Balbuciou algumas palavras silenciosas para si mesma e teve a certeza do que gostaria de fazer: em poucos segundos acertava, certeira, no parabrisa do caminhão que costurava o congestionamento, uma enorme gota de cuspe, bem no meio, no centro, do vidro, espalhando gotículas de espuma e escorrendo gosmenta e úmida e pegajosa pela transparência vitral, refletindo as cores de um ocaso cinza, amarelo e cinza, que iluminava e sinalizava o horizonte. Sorriu e partiu, não precisava de mais nada, percebeu que a vida na cidade é assim, a felicidade precisa estar em coisas simples.

ISAAC RUY

Texto escrito para o projeto Escribas do Breu realizado pelo SESC Rio Preto


30 março 2016

Carta de amor, para alguém que ainda não conheci

talvez eu te encontre hoje pela manhã, na fila do pão de queijo, da padaria da esquina; talvez esbarre em você no mercado, próximo à gôndola dos repolhos roxos; talvez eu te ceda a vez na fila do banco, e nossos olhares se cruzem, e surja aquilo que chamam de chama da paixão, e nos beijemos, ali mesmo, entre a fila preferencial e a porta giratória travada por alguém que esqueceu as chaves no bolso; talvez você me feche no cruzamento, no sinal amarelo, e, depois de dois ou três palavrões e alguns gestos obscenos, eu reconheça em você a pessoa dos meus sonhos e você veja em mim a pessoa que sempre sonhou; talvez, com algumas moedas, eu te ajude a completar o valor da passagem de ônibus e sinta que você é minha cara metade, e te acompanhe até sua casa, e nunca mais saia de lá; talvez eu trombe com você na esquina e derrube seus cadernos, suas caixas ou sua sacola de laranjas e, enquanto recolhemos uma a uma, troquemos sorrisos e pedidos de desculpa, e talvez, então, eu te pague um sorvete de coco queimado que quase ninguém gosta mas, coincidentemente, é o nosso preferido, e percebamos ali, com as casquinha derretendo, pingando e escorrendo entre os dedos, que somos almas gêmeas; talvez eu te veja na saída do cinema e te siga por mais de dezessete quarteirões até sua casa, rezando para que olhe para trás e se apaixone por mim, ou que não chame a polícia; talvez eu entre numa loja de móveis e eletrodomésticos, compre uma coisa qualquer, parcelada em 24 vezes sem juros, e te veja pagando um boleto atrasado, e percebamos, num instante, que fomos feitos um para o outro, e façamos sexo, escondidos, no depósito, entre as caixas de fogão 4 bocas e refrigeradores frost free; talvez, no caixa da farmácia, você me empreste uma caneta esferográfica, azul, para que eu assine o cheque, e, depois de agradecer, eu anote meu telefone na bula do seu remédio para cólicas renais; talvez nossas mãos se toquem, sem querer, na escada rolante, e percebamos, enquanto subimos, que já nos conhecemos de vidas passadas e nos casemos uma semana depois em Las Vegas ou num cartório qualquer de uma cidadezinha do interior; talvez já dançamos e fumamos e rimos e bebemos na mesma festa, mas, como dois loucos, não conseguimos nos ver enquanto esperávamos por ajuda, desacordados, na fila do banheiro ou na calçada mais próxima, e, depois, solitários e tristes, curtimos a ressaca, cada um em sua própria casa; ou talvez nunca tenhamos nos visto pessoalmente, mas, ao ler, você reconheça que essa carta foi escrita para você, e então me deseje todas as noites enquanto sonha comigo, ou enquanto toma banhos quentes demorados pensando em mim; talvez só encontre essa carta anos depois, perdida dentro de algum livro de autoajuda, em um sebo do centro da cidade, ou talvez você nem sequer leia, mas sinta pelo perfume deixado nessa carta que fomos feitos um para o outro; talvez já esteja com outra pessoa mas quer, ou um dia há de querer, estar comigo secretamente; apenas saiba que estou aqui, estou te esperando, independente da situação ou dos pormenores, não sou exigente, não me importo com particularidades, sejamos felizes, desde que nossos ascendentes combinem, claro.


26 dezembro 2012

O último cigarro


     O último cigarro.
     O primeiro do dia.
     A primeira tragada lhe provocou uma certa tontura, típica do primeiro vestígio de fumaça invadindo brutalmente o pulmão.
     A última noite não lhe oferecera muitas recordações e o cheiro do último copo de whisky ainda lhe saia pelos poros. Não se lembrava da última vez em que saíra de casa - dias, semanas?
     O primeiro gesto foi se sentar e soltar lentamente a fumaça, desenhando uma cortina branca pela luz fraca dos primeiros raios de sol que passavam pela janela. Os cortes, rasos, no pulso, ainda ardiam.
             Cinzas no chão.
     O último cigarro seria um momento para reflexão, planejamento, mudanças - 
o primeiro pensamento que lhe veio a cabeça, enquanto tragava novamente, dessa vez mais pausadamente, quase um suspiro.
             Fumaça
     As últimas horas da noite anterior lhe vieram em flashes à mente.
     As primeiras lembranças, vagas, não lhe serviram como base para um reflexão. Estranhas. Esparças. Esfumaçadas
             Cinzas no chão
             Melhor ir mais longe, no passado. Tragou novamente.
     Primeiro, lembrou-se rapidamente da mãe. Estranho, pensou.
             Fumaça
     A última vez que visitara a mãe, prometera que iria mudar, parar de fumar, lembrou-se.
             Melhor pensar em outra coisa. Tragou. Profundamente.

             Fumaça

             Cinzas.
             Melhor pensar em alguma coisa, pensou.
             Tragou.
             Fumaça.
             Cinzas
     Primeiro pensar, depois refletir. Mas pensar em quê? Não havia nada para pensar.
             Melhor, então, planejar, buscar mudanças, tragou.
             Fumaça.
     Última tragada, não há mais tempo.
             Cinzas.
             Melhor deixar isso pra lá, bobagem, concluiu jogando a bituca no vaso do cacto morto.
             Fumaça
             Melhor apanhar mais um maço na gaveta antes de sair, refletiu, talvez passasse na casa da mãe mais tarde, planejou, e não queria ficar sem cigarros pelo caminho.
     Mudou o cato de lugar, talvez voltasse a viver com um pouco de sol; soprou as cinzas do chão e saiu sem protetor solar.



Isaac Ruy

11 junho 2012

Influente



O mendigo, folheando o jornal, que lhe serviria de coberta, viu uma notícia anunciando que a obra "A fonte", de Marcel Duchamp, fora escolhida como a arte moderna mais influente da história.
Perguntou a uma mulher de óculos, sentada no ponto de ônibus, com cara de professora, o que significava "influente". Ela não soube explicar, ou não quis, mas o menino, que estava ao seu lado, retirou um enorme livro da mochila e leu em voz alta, para que ele escutasse. "Influente: que influi; que tem autoridade, prestígio; que exerce influência sobre os demais".
O mendigo voltou para o banco e, depois de muito observar a imagem do "mictório assinado", que ilustrava a reportagem, levantou-se e começou uma caminhada com passos firmes e destino certo.
Influenciado pela obra, pretendia assinar todos os mictórios e vasos sanitários do banheiro público da praça.
No caminho, já imaginava a quantos não "influenciaria" com aquele gesto simples, mas artístico, de assinar o local onde os homens urinam. Teria, desse modo, "prestígio, autoridade".
Chegando ao banheiro, notou que já havia assinaturas por todo lado: paredes, portas, chão, teto e até no espelho quebrado. De fato, não havia nenhuma assinatura nos mictórios, mas naquele momento lhe pareceu tão menor, insignificante e tolo assinar naquele lugar, que se escondeu em uma das cabines e ficou ali, cabeça baixa e em silêncio, sentindo-se envergonhado a pensar que aquele era, de fato, o lugar mais apropriado para que assinasse.
Levantando-se para sair, observou a quantidade de desenhos e frases escritas na porta. Seria aquilo arte também? Provavelmente sim. Ao menos parecia ter dado mais trabalho e ser mais artístico que a assinatura no mictório.
Questionou-se, refletiu e, depois de muito ler e observar a arte que o encarava, sentou-se e, “influenciado” pelas pornografias descritas e ilustradas na porta, masturbou-se ali mesmo.
Saiu do banheiro, voltou para a praça, jogou a página da reportagem no lixo, se cobriu com o restante do jornal e, feliz, refletiu que, de fato, ele existia apenas para ser influenciado, não para influenciar ninguém.




Isaac Ruy



02 junho 2012

Sonhos


Noite.

Todos em silêncio.
Os sonhos embalam todos na casa...
os que dormem o sono dos justos
e o ladrão que furta a TV plana de LED 46 polegadas com conversor digital integrado full HD 3D/internet vídeo.
Isaac Ruy



05 março 2012

Donadecasahipocondríaca

acordoucom
dordecabeça
levantoulabirintite
trêscapsulas
começoualimpeza
dobanheiro
refluxogastrite
esfregouchãoparede
artroseartrite
doiscomprimidos
limpouquartos
herniadedisco
salaevaranda
hipoglissemia
quarentagotas
lavouasroupas
brancasecoloridas
leveanemia
cincopílulas
passoudobrou
fortesinusite
escolheufeijão
asmabronquite
picouacarne
esquentouarroz 
oitocomprimidos
úlceranervosa
lavoucopos
arritmiatremedeira
noventagotasduaspílulas
secoupratos
capsulascoloridas
guardoutalheres
arrumougavetas
espasmosalucinação
comprimidospílulasgotas
fraquezacovulsão
morreucaída
entreaspanelas
depressão

Isaac Ruy

07 dezembro 2011

Sociedade anônima



I
acordou no chão frio
com a boca amarga
e com a roupa suja
de vômito seco
pensou em quanto tempo 
estava ali
mas deitou novamente
não importava 
era só mais um dia 
como qualquer outro


II
fumou o cigarro
sentado na privada
um vestígio de prazer
num dia difícil
para não desconfiarem
deu uma descarga
que levou junto
a bituca
e seus sonhos
de criança


III
aurora
juntou as latas de refrigerante
caixas de doces
garrafas de suco
embalagens de salgadinhos
amontoou no carrinho
e então fez sua primeira
e única
refeição do dia
crepúsculo


IV
penteou os cabelos
passou batom
rosa
sua cor preferida
colocou o vestido
rosa
seu preferido
e foi trocar sua infância
por dinheiro
na esquina mais próxima


V
passou o dia
na fila
gemendo 
chorando
implorando uma chance
para aquela que 
agora
dormia 
no túmulo
de sua barriga


VI
noite de chuva
encontrou um canto seco
para deitar
se cobriu com o jornal
molhado
que estampava a notícia
da morte do amigo
queimado
os olhos abertos
também choviam


VII
atento
olhava a mãe e a criança
o modo como sorriam
o carinho que lhe era estranho
ausente
num ato de coragem
se aproximou 
e levou a bolsa 
para matar a fome
que lhe acariciava as entranhas


VIII
dividia o que tinha
com os amigos
naquela 
noite
era uma lata
queimando crack
uma ponta de baseado
e um pouco de
tristeza
e abandono


IX
no semáforo
passava pelos carros
pedindo ajuda 
por ser surdo-mudo
os motoristas
em solidariedade
se faziam
de cegos
protegidos pelos vidros fechados
e pelos óculos de sol

X
na calçada
as mãos
como pétalas
se abriam para pedir a esmola
os pés
cheios de feridas
espinhavam o olhar alheio
lhe garantiam a subsistência
e não saravam
graças a Deus


Isaac Ruy





29 novembro 2011

Fluxo XI

olhou para os dois lados do corredor não viu ninguém pôde então sair da sala ainda que silenciosamente a passos curtos e leves esses sapatos fazem muito barulho tirou-os  ninguém pode ouvir um ruído preciso ser discreta ou poderão desconfiar de algo guardou-os na bolsa que trazia ao lado passou pelas outras portas fechadas rapidamente para não ser surpreendida por ninguém que saísse para um café ou uma visita ao banheiro mas no fim do corredor sentiu um calafrio a última porta estava aberta justamente a porta onde o maior vigilante se escondia uma criminosa uma bandida todos gritarão se eu for pega se arrastou até o beiral enquanto os ouvidos atentos se aguçavam em busca de sons mínimos melhor voltar e desistir do delito mas um barulho a surpreendeu vindo da porta ao lado não pode pensar atravessou a sala da porta aberta que por sorte estava vazia e entrou na primeira porta que encontrou ali no escuro escutava as risadas dos que saiam e conversas dos que transitavam pelo corredor passou a noite no armário ao lado da sala do chefe para não ter que explicar a tentativa de sair 15 minutos mais cedo

Isaac Ruy



04 novembro 2011

Top

Linda, nariz empinado, encarou as vitrines, não olhou para os preços, rica, olhar de modelo na passarela.
Elegante, batom e biquinho, desfilou pelo espelho, não olhou os defeitos, magra, rostinho de modelo de revista.
Sensual, lânguido rebolado, atravessou a avenida, não olhou para nada, fina, corpinho de  modelo atropelada.

Isaac Ruy

30 setembro 2011

Mãos vazias

Pegou toda sua dignidade e colocou na mesma mão que pedia a esmola.
Não lhe deram dinheiro e ainda lhe levaram a dignidade. 
Foi para casa de mãos vazias.

Isaac Ruy

05 setembro 2011

oh, lepse...

este sou eu,
frente a etnerf
com a imagem do presente

analepse do que fui
prolepse do que serei
recordações
e projeções

encarar a si mesmo
não faz bem ao ego
                                  nego

melhor seguirmos enganados
que encarar a realidade -
lindos
como
sempre

estamos apodrecendo
enquanto amaciamos a carne,
esticamos a pele
e maquiamos os vermes

a beleza está nos olhos de quem vê
tenho medo
prefiro não encarar
e se não estiver nos meus?

assim ao menos vou bonito,
imagino,
e que me esperem no fim da passarela
dessa 
vida
bela

e se insistem em perguntar
como vai?
respondo sempre
muito bem, obrigado

melhor mentir
a encarar os cacos
de fato
me mato?

não

aguardo a morte chegar
sorrindo
com sua cara 
que muito me agrada
de caveira
seca

ao menos vou melhor que ela

Isaac Ruy


04 agosto 2011

25 julho 2011

A notícia mais surpreendente dos últimos tempos

Ana sempre sabia de tudo.

"Ana, o que conta de novo?" E ela mastigava informações sobre a vida alheia.
"Ana, como vai?" E ela gargarejava fofocas e boatos que ouvira por aí.
"Ana, onde fica o banheiro?" E ela vomitava notícias quentíssimas que descobrira sem querer.

Até que um dia...
"Ana, qual a novidade de hoje?"
_ Hoje não tenho nenhuma novidade.

Pasmou a todos com a notícia mais surpreendente dos últimos tempos!

Isaac Ruy

25 junho 2011

Chamaeleonidae

       Ficou tão pálida, ao ver o marido, pela janela, que quase se camuflou na parede, branca, atrás de si.
      Não fosse o enorme retrato, da lua de mel, em Paris, pendurado, passaria quase imperceptível, sendo difícil distinguir o corpo, nu, da parede.
          O amante, ao contrário, camuflou-se, e muito bem, debaixo da cama, deitado, no carpete marroquino, preto.

Isaac Ruy

23 junho 2011

Boa noite, Cinderela...


... Humm que bebida gostosa, o que é?
Acordou na grama sem um sapato - e sem calcinha.

Isaac Ruy

16 junho 2011

História sobre o depois de sete anos

Ele _Você já vem se deitar?
Ela _ ...
Ele _ ...
Ela _ ...
Ele _ Você já vem se deitar?
Ela _ ... quê?
Ele _ Eu perguntei se você já vem se deitar...
Ela _ ... estou lendo.
Ele _ humm...
Ela _ ...
Ele _ O que está lendo?
Ela _ ...
Ele _ O que está lendo?
Ela _ ... quê?
Ele _ Perguntei o que está lendo...
Ela _ ... um livro.
Ele _ ...
Ela _ ...
Ele _ Que livro?
Ela _ ... que que é, Marcos?
Ele _ Nada
Ela _ ... humm...
Ele _ ... 
Ela _ ...
Ele _ ... você se lembra que dia é amanhã?
Ela _ ... quê?
Ele _ Que dia é amanhã? Perguntei se você se lembra...
Ela _ ... sexta...
Ele _ ... só sexta?
Ela _ Sexta-feira...
Ele _ ... não é só isso, amanhã estaremos juntos há exatamente 7 anos...
Ela _ ... ah... sim... era isso?
Ele _ E tem gente que diz que existe uma maldição sobre essa data. Li isso em uma revista esses dias, que os casais costumam passar por uma "crise dos sete anos", que bobagem. As pessoas são muito supersticiosas ao acreditarem nesses exageros que as revistas dizem. Nós por exemplo estamos su...
Ela _ ... Marcos...
Ele _ ...per bem, sem problemas. Acredito que nunca estivemos em melhor fase. Se os casais se escutassem mais e soubessem dialogar, como nós dialo...
Ela _ ... Marcos... 
Ele _ ... gamos, os casamentos durariam mais, porque é impotante saber ouvir o outro e aprender respeitar o espaço alheio. Hoje em dia ninguém ouve o próximo e essa dificul...
Ela _ ... Marcoos...
Ele _ ... dade em ouvir acaba afastando os casais e destruindo relacionamentos mais frágeis, mas o nosso resistiu todos esses anos com a força do diálo...
Ela _ ... MARCOS, quero o divórcio. 
Ele e Ela _ ... 
As bocas se calam.

Isaac Ruy

Lembrando que essa é uma sequência de histórias. Clique AQUI e leia as anteriores, de preferência em ordem cronológica 



15 junho 2011

Desculpa astrológica

Estava aflita.
Sempre procurava um defeito naquele homem tão perfeito, mas não encontrava. Romântico, carinhoso, atencioso - e que sabia satisfazê-la em suas mais variadas vontades e desejos.
Formavam o casal perfeito, todos diziam. 
Estava cansada e entediada de tanta perfeição.
Um dia, em suas pesquisas, descobriu algo sobre ele que não pôde aceitar ou perdoar: seu ascendente era sagitário.
Decidiu acabar com a relação.

Isaac Ruy

P.S. Desconheço totalmente qualquer significado que o ascendente em sagitário possa ter, foi uma escolha aleatória.

03 maio 2011

Zelo paradoxal

Amava suas recordações, por isso guardava tudo em envelopes lacrados embalados em plástico bolha dentro de caixas fechadas e empacotadas com fita sobre o maleiro do guarda-roupa.
Ficavam protegidas, seguras, escondidas, intactas - e esquecidas.


Isaac Ruy

08 abril 2011

História sobre o depois de um ano de sexo

Ele _ Hoje você chegou rápido ao orgasmo...
Ela _ ... é ...
Ele _ ...
Ela _ ...
Ele _ Estava com tesão?
Ela _ ...
Ele _ ...
Ela _ É que estou com um pouco de dor de cabeça.
Ele _ humm...
Ela _ ...
Ele _ Mas no que isso influencia?
Ela _ ...
Ele _ ...
Ela _ Nada.
Ele _ humm...
Ela _ ...
Ele _ Ah... agora entendi, você fingiu?
Ela _ Me desculpe Marcos, mas só quero ficar em silêncio e dormir logo.
Ele _ ...
Ela _ ...
Ele _ Não acredito que você fingiu... já fez isso antes?
Ela _...
Ele _ Fez?
Ela _ Não, Marcos, essa foi a primeira vez...
Ele _ ...
Ela _ ...
Ele _ ...
Ela _ ...
Ele _ Mas saiba que não está ganhando, não está 1 a 0 para você...
Ela _ Como assim?
Ele _ Eu também já fingi.
Ela _ ...
Ele _ Uma vez concordei e disse que tudo bem dormir sem transar, mas estava morrendo de vontade...
Ela _ ...
Ele _ ...
Ela _ ... 
Ele _ Merda. Acabei de perceber que você já está com 2 pontos...
Ele e Ela _ ... 
A luz se apaga.

Isaac Ruy
Esse texto é a continuação desse AQUI,
que, por sua vez, é a continuação desse PRIMEIRO.
Se puder, leia na ordem!

27 março 2011

Ecos(sistema)

       Estava triste, pensando sobre as infelicidades de sua vida, quando avistou algo pequeno que se locomovia lentamente aos seus pés. Aproximou-se e viu que se tratava, na verdade, de uma formiguinha carregando uma enorme pétala rosa.
       Observou o modo como a coitada se esforçava para carregar a pétala, que tinha mais que o triplo de seu tamanho e, provavelmente, de seu peso. Pensou que um dos motivos de sua infelicidade era o excesso de trabalho, mas também pensou como a formiga fazia esse esforço danado e não reclamava, seguia em frente rumo ao formigueiro.
       A viu desviar de buracos, escalar pedras e avançar lentamente pelo gramado. Refletiu que todo aquele esforço da pobre formiguinha mal seria recompensado, pois ela provavelmente entregaria a pétala para seus superiores sem receber um obrigado, assim como ela não recebia e era escravizada no departamento em que trabalhava.
       A formiguinha atravessou, então, uma enorme poça que a impedia de chegar ao formigueiro, lágrimas correram pelo rosto, pois mesmo com todo esse sofrimeto a pétala ainda era arrastada. Mas por qual motivo? Nem direito ao amor a pobre formiguinha teria, era só uma operária destinada ao trabalho enquanto outros passavam o dia amando e sendo amados, levando uma vida de luxo como reis, sem precisar conferir projetos e redigir relatórios ou passar os fins de semana solitários assistindo comédias românticas e jantando miojo.
       Quando a formiguinha saiu da água, faltavam poucos centímetros para chegar ao formigueiro e alcançar o objetivo da missão. Percebia-se que a pétala estava mais pesada, pois carregava algumas gotículas da poça, e que o caminhar da formiguinha era mais lento e desesperado. Ela então se decidiu e apressadamente deu um pisão bem firme esmagando a formiguinha com pétala e tudo. Percebeu, naquele momento, que só havia um modo de livrá-la do sofrimento e da solidão interior que a consumia.


Isaac Ruy