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18 julho 2011

Segredo Senil III

Trancou a porta do quarto antes de abrir o esconderijo, não queria ninguém importunando o momento.
Tirou, com todo cuidado, a caixa amarela, de trás da vitrola, e a chave de bronze, do fundo da gaveta.
O som do destrancar enferrujado revelava os anos em que não se encontravam: a chave e a caixa, ele e a mulher amada.
Ficou a observar com os olhos marejados de saudade a foto até que se lembrou de tombar o retrato da falecida que estava sobre o criado mudo.
"É melhor que vocês duas continuem sem se ver..."


Isaac Ruy

14 julho 2011

Segredo Senil II

Saiu de casa com a saia longa e a bolsa grande, não queria ninguém do bairro comentando que lhe faltava pudor.
Entrou na condução, mostrou a carteira do idoso e foi parar do outro lado da cidade
Antes de sair de casa, como fazia todas as sextas e sábados, chamou o marido, mas ele nunca ia, já estava afastado da igreja havia anos.
Chegando no salão, tirou a saia, botou o conjunto de paetê e o sapato que estava escondido na bolsa e caiu no samba.
"Porque eu também sou filha de Deus, meu bem...".


Isaac Ruy 

 

12 julho 2011

Segredo Senil I

Saiu da mesa de jantar lenta e cuidadosamente, não queria que ninguém percebesse o que escondia e estragasse tudo.
A família continuou à mesa, terminando o jantar, enquanto ela seguia para o banheiro.
A neta ainda perguntou se estava tudo bem, mas nem se deu o trabalho de olhar para trás e responder.
Trancou a porta e jogou os comprimidos e cápsulas da osteoporose e do mal de alzheimer na descarga.
"Quando melhorar essa dor nas costas vou fugir dessas pessoas estranhas que querem me envenenar com esses remédios"

Isaac Ruy

 

06 julho 2011

Dom

Capitu chegou em casa, despenteada, às 13h00 do dia seguinte.
Explicou as razões, mas sabia que Bento não acreditara na mentira que inventara sobre onde, e com quem, passara a noite - provavelmente pelos olhos de ressaca que a denunciavam sobre a farra da madrugada.
Foi escovar os cabelos e fingiu que nada aconteceu. Ele também.
Era esse dom, de fingir, que mantinha vivo esse romance casmurro.

Isaac Ruy

30 junho 2011

Segredo Pueril III

Sentou-se defronte ao espelho e maquiou-se freneticamente, não queria que ninguém a surpreendesse antes de estar pronta.
Os pais chegariam do jantar de negócios a qualquer momento e perdera muito tempo provando vestidos e sapatos.
Usou todas as opções de batons, pós, blushs, lápis, sombras, perfumes e laquês disponíveis.
Sujou o vestido, quebrou o salto, mas não parou o desfile pela casa.
"Mamãe vai ficar orgulhosa quando ver o quanto estou parecida com ela" 

Isaac Ruy

 

29 junho 2011

Segredo Pueril II

 No escuro, saiu lentamente do quarto tateando a parede, não queria que ninguém percebesse sua movimentação.
Fechou todas as portas dos quartos para evitar que os ruídos acordassem os pais e irmãos.
A da empregada achou melhor trancar, sabia que ela era sonambula.
Ligou a tv, no mute, e passeou pelos canais até chegar no desejado e proibido.
"Estou de castigo pela manhã, ninguém disse nada sobre assistir desenhos à noite".

 Isaac Ruy

28 junho 2011

Segredo Pueril I

Esperou todos dormirem para só então conversar com a boneca, não queria ninguém rindo de sua ingenuidade.
A boneca só lhe contemplava com aquele sorriso doce e olhos compreensivos.
Não disse nada.
Não repondeu a nenhuma das perguntas.
"Que boba eu sou. É tarde, deve ter dormido também".

Isaac Ruy

03 maio 2011

Zelo paradoxal

Amava suas recordações, por isso guardava tudo em envelopes lacrados embalados em plástico bolha dentro de caixas fechadas e empacotadas com fita sobre o maleiro do guarda-roupa.
Ficavam protegidas, seguras, escondidas, intactas - e esquecidas.


Isaac Ruy

18 abril 2011

A avó e a voz do pensamento

Silêncio.
Deitado no sofá fingia que lia enquanto as lembranças passeavam pelas pernas, peitos e bunda da nova professora da escola.
A noite estava tão quieta que seria possível ouvir os pensamentos, pensou.
Tratou de ligar a TV, a avó estava na sala tricotando e, apesar de ter péssima audição, preferia não correr riscos.
Avó tem dessas coisas de saber o que os mais novos pensam. Se ouviu alguma coisa não sei, mas lhe lançou um olhar desconfiado por cima dos óculos.
Tratou de pensar em como gostava da comida dela.
Estranho. 
Agora ganhou um sorriso banguela da velha.

Isaac Ruy

07 março 2011

O homem sem chapéu

       Da janela do sobrado observava o misterioso homem de chapéu passando pela rua.
       Dada a altura em que olhava, nada via do rosto, mas o andar tranquilo e seguro do homem de chapéu esbanjava charme e elegância, alimentando ainda mais a imaginação da menina.
       Passava sempre no mesmo horário e ela estava sempre enfeitada e debruçada no parapeito a esperá-lo. 
       Ela sempre de laço e fita.
       Ele sempre de chapéu.
       Depois de semanas a imaginar coisas e escrever palavras de amor no diário escondido, criou coragem e o esperou sentada em frente ao sobrado, na calçada, como quem não quer nada - queria muito ver de perto o homem que o chapéu escondia.
       De longe avistou o chapéu e preparou o melhor sorriso, além de arregalar bem os olhos para não perder um detalhe do amado.
       Ele também a viu e, ao passar em frente moça tão bela e sorridente, não se conteve e cumprimentou-a sorrindo - e tirando o chapéu.
       Ela, sem responder o aceno, emburrou-se e entrou porta adentro indo chorar sozinha debruçada na cama.
       O cabelo em desalinho e o laço no chão.
       Antes não tivesse descido.
Isaac Ruy 

 Quadros de René Magritte


25 dezembro 2010

Noite de Natal

       Estava fingindo que dormia.
       Já esperava o natal há 12 meses, passava um e contava os dias para o próximo.
      Mesmo todos dizendo que era mentira, sabia que o Papai Noel visitaria sua casa. Esse ano a carta foi caprichada e ele tinha, realmente, sido um menino menos levado.
       Já era bem tarde e toda a família dormia - menos ele, queria conferir o presente antes de todos. 
       De repente um barulho na janela da sala.
       "O Papai Noel deve estar procurando outro modo de entrar", afinal a casa não tinha chaminé. Barulho de passos, de móveis se arrastando e, finalmente, da janela sendo fechada.
       Esperou mais alguns segundos, para ter certeza de que o cômodo já estava vazio e foi correndo até a janela, para tentar ver o trenó indo embora, mas tudo o que viu foi a rua vazia e um céu sem estrelas.
       Quando voltou o olhar para a sala, os olhos se encheram de lágrimas.
       O Papai Noel tinha levado a televisão.
Isaac Ruy
 

23 julho 2010

Curiosidade

     Pela janela, viu que o marido trazia uma caixa verde; ele nunca comprava nada, achava que isso era coisa que ela devia fazer - Melhor assim.
     Na caixa só poderia haver um presente, para compensar o fato dele não ter nem ao menos se lembrado do aniversário de casamento na semana anterior - Como pôde esquecer?
     Desceu as escadas e observou que ele havia deixado a caixa sobre o armário, com certeza para que ela não alcançasse - Danado!
__ Como foi seu dia?
__ Bem.
__ Alguma novidade?
__ Não.
__ Nenhuma?
__ Não.
__ Nem pra mim?
__ Não.
__ Nadinha? (Beijo)
__ Ah! Sim, pelo que vejo já descobriu...
__ Descobri... mas foi sem querer... eu estava olhan...
__ Eu também fiz sem querer, mas acho é só lavar que a mancha sai.
__ Que mancha?
__ A mancha de mostarda na almofada, não foi isso que descobriu?
__ Ah... sim, foi... - Mentirosa, mentiroso.
     Ele subiu as escadas e foi para o quarto, enquanto ela refletia sobre o que fazer, sentada na mesa - O que fazer?
     Suspeitava que o marido pensasse que ela não tinha visto a caixa, o melhor era disfarçar e aguardar a entrega do presente com o pedido de desculpas - Vai ser lindo!
     Ouviu o som do chuveiro no andar de cima. Não parava de olhar para a caixa sobre o armário. Era como se ela a chamasse.
     O que seria? - Um anel? Não, a caixa era muito grande, tola. Um conjunto de jóias poderia ser. Ou um prefume. Ou um vestido preto de seda acetinada com faixa bordô e drapeado na altura da cintura com duas fivelas redondas e douradas no decote tamanho M, como aquele que ela elogiou enquanto passavam pelo centro da cidade, de carro, a caminho do mercado - Maravilhoso!
     Não resistiu, buscou uma cadeira, subiu e pegou a caixa. Agora estava sobre a mesa, parada e sensualmente sendo observada em todos os detalhes pela mulher que analisava cada aresta, cada face, cada ponto verde musgo - Estranho...
     O verde da caixa estava encardido, com algumas manchas, marcas de dedos e estava sem laço, o que deixava mais evidente os arranhões da tampa - Homens...
     Chacoalhou e o som abafado de dentro não possibilitava descobrir o que havia ali - Provavelmente por conta de alguma proteção para que o conteúdo não sofra choques e pancadas. Tomara que seja plástico bolha.
     Não tinha cheiro, não fazia barulho e o peso era mediano, nem pesado nem leve.
     Ouviu que o chuveiro foi desligado, ela tinha agora poucos minutos com a caixa que estava diante de seus olhos... fechada.
     Respirou fundo e criou coragem para abrir. Abriu a caixa lentamente e observou o conteúdo boqueaberta.
     Estava... surpresa.
     O marido descendo a escada avistou a mulher atônita.
     Dividiram a mesma expressão.

Isaac Ruy