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15 abril 2016

MACRO

Sozinha, no alto do viaduto, sentia o vento fraco embaraçar os cabelos que balançavam ao som das buzinas e motores dos carros que seguiam em manada abaixo de seus pés; sabia que pássaros silvavam, em algum lugar, ainda que o som da multidão no ponto de ônibus da esquina e os berros do vendedor ambulante de produtos importados impedissem que a melodia sibilante lhe chegasse aos ouvidos; a boca seca ainda trazia o gosto do último trago de cigarro com Coca-Cola e o ar cheirava a cidade, fumaça, urina e suor das seis da tarde. Então, olhando para baixo e reconhecendo sua própria insignificância, quase esquálida, diante da situação presente na imensidão urbana, escalou a grade de proteção até que sentisse a liberdade de não ter uma cela que a separasse do vazio, do nada; ela era o nada e o tudo naquele instante. Balbuciou algumas palavras silenciosas para si mesma e teve a certeza do que gostaria de fazer: em poucos segundos acertava, certeira, no parabrisa do caminhão que costurava o congestionamento, uma enorme gota de cuspe, bem no meio, no centro, do vidro, espalhando gotículas de espuma e escorrendo gosmenta e úmida e pegajosa pela transparência vitral, refletindo as cores de um ocaso cinza, amarelo e cinza, que iluminava e sinalizava o horizonte. Sorriu e partiu, não precisava de mais nada, percebeu que a vida na cidade é assim, a felicidade precisa estar em coisas simples.

ISAAC RUY

Texto escrito para o projeto Escribas do Breu realizado pelo SESC Rio Preto


04 agosto 2011

03 fevereiro 2011

Discurso

          Abaixo está o discurso que escrevi e li, enquanto orador, na cerimônia de colação de grau  do IBILCE/ UNESP. Estavam presentes os formandos dos cursos de Licenciatura em Letras, Ciências da Computação, Ciências Biológicas, Química Ambiental e Física Biológica.
          Espero que gostem...
          Para aqueles que quiserem publicar trechos ou o texto na íntegra, peço que dêem os créditos... não foi fácil escrever!

          Boa noite senhoras e senhores, em primeiro lugar gostaria de agradecer a presença de todos, mas principalmente a paciência dos que aqui ainda estão, afinal sabemos que a cerimônia de colação de grau não é um dos eventos mais divertidos que temos o prazer de prestigiar, mas, com certeza, será um dos mais emocionantes e memoráveis para muitos, pois representa o resultado de anos de estudo e desenvolvimento de habilidades e conhecimento.
          Poderia fazer um longo discurso de 3 horas, usando todo o jargão rebuscado e científico que aprendi em meus 5 anos de curso para convencê-los, por cansaço, que as carreiras que escolhemos serão algumas das ocupações mais nobres e reconhecidas da sociedade, contudo seria muita falta de bom senso começar a maquiar a realidade logo em minha primeira noite de formado.
          Saibam que estamos saindo hoje formados em cursos que são, cada um em sua especialidade e particularidade, os fomentadores de uma sociedade melhor e possibilitadores do acesso à educação, à informação, à proteção ambiental e aos avanços científicos e tecnológicos - apesar de ainda termos um reconhecimento aquém do merecido. Entretanto, deixo para que cada um dos formandos reflita por si só o que poderá tirar de proveito e aplicabilidade dos ensinamentos advindos desses anos na universidade. O modo, os meios e a finalidade dependerão exclusivamente dos objetivos que tinham ao chegar para o primeiro dia de aula e dos que têm agora, ao sair com o diploma na mão.
          O poeta português Fernando Pessoa nos inspira em seus versos afirmando que “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis. “
          Esses versos retratam bem o importante momento pelo qual estamos passando: intenso, inexplicável, Incomparável. Assim foi o tempo em que estivemos unidos enquanto colegas de sala, companheiros de turma e amigos pra vida; e assim é também o dia de hoje, dia de darmos mais um passo nesse caminho universitário, talvez o último, ou apenas um dos primeiros de muitos que se seguirão. O mais interessante e importante é que cada um de nós encarou esta experiência de maneira diferente. Alguns se envolveram em atividades políticas, outros em culturais, alguns estavam em todas as festas e outros não perdiam uma conferência, alguns gostariam de ter feito outro curso, outros encontraram o que realmente querem fazer por toda a vida. Assistimos às mesmas aulas, mas cada um da turma manteve sua personalidade, seu modo de encarar o curso e suas diferenças. E é bem verdade que nem sempre convivemos muito bem com elas, mas conviver com essa heterogeneidade de pessoas possibilitou que também nos transformássemos e nos preparássemos para um mundo que vai além do que gira em torno do nosso próprio umbigo.
          Se agora olharmos para essa pessoa ao nosso lado, vestida com essa beca quente e engraçada, mal podemos relembrar o estranho que conhecemos na primeira semana em que chegamos à universidade. Mudamos tanto nesses anos para que hoje, sentados nessas cadeiras esperando para pegar o canudo, nos tornássemos iguais.
Um ideal de vida nos uniu, fez-nos companheiros de uma longa e árdua caminhada. Esse mesmo ideal vai, um dia, separar alguns de nós. Talvez ocorra hoje, amanhã, daqui a anos... porque é assim, cada um tem um destino a seguir. Nesses anos de graduação muitos permaneceram, alguns já ficaram no percurso, outros se agregaram. Hoje a saudade de um tempo que ainda não passou, que ainda acontece, nos invade, pois, infelizmente, o tempo tudo muda e nos faz esquecer aquilo que agora nos parece o mais importante: os amigos.
          Pode ser que um dia nossos filhos olhem as fotos sorridentes dessa época e perguntem: "Pai, mãe, quem são esses aqui da foto?", e então responderemos "esses são meus amigos..." ainda que alguns responderão "guarda essa porcaria de foto moleque e vai buscar minha cerveja", não importará, o que importa é que hoje, aqui e agora existimos para fazer bem aqueles que nos cercam. E ainda que restem apenas fragmentos de memória, ficarão em nós marcas inapagáveis da presença, convivência e experiências desses amigos. Muito obrigado por fazer parte da minha história e permitir que eu faça parte de vocês.
          Hoje também é o dia de olhar para trás e agradecer aos nossos pais, ou àqueles que cumpriram sua função, que, além de serem também nossos amigos, se sacrificaram, incentivaram e nos pressionaram para que estivéssemos aqui. A vocês que estiveram ao nosso lado e que agora estão aí sentados nos guardando com olhares orgulhosos e máquinas fotográficas frenéticas, somos gratos por tudo.
          Não podemos nos esquecer de agradecer também àqueles que nos transmitiram o conhecimento, nossos mestres. Um muito obrigado por terem partilhado conosco parte do que sabem. De alguns nos tornamos amigos, outros se transformaram em exemplo, alguns em mito, mas no fim, todos contribuíram para nossa formação.
          Por falar em formação, com o tempo aprendemos que a universidade também pode ser muito mais que assistir ás aulas e voltar para casa; aprendemos que as mesas da cantina são mais usadas para conversar que para comer, assim como algumas salinhas da biblioteca também são; aprendemos que ter posicionamento político atrairá a antipatia de alguns, mas não tê-lo também terá o mesmo efeito; que algumas provas sempre nos surpreenderão por sua inesperada complexidade ou simplicidade, ainda que seja mais pela primeira opção que pela segunda; além de muitas outras coisas também tomamos ciência de que pertencemos a uma classe privilegiada. São poucos os que chegam aonde chegamos e vencem como vencemos os obstáculos e barreiras que nos foram impostos desde a prova do vestibular.
          Devemos às melhores condições que nos foram oferecidas, às oportunidades que nos foram proporcionadas e, finalmente, à instituição que nos concedeu este espaço, uma universidade com os mais variados problemas e virtudes e da qual nos vangloriamos de sair com um diploma. Somos formados pela UNESP.
          Sua função vai muito além do mero informar, pois é o espaço, por excelência, do desenvolvimento e discussão de saberes novos ou já estabelecidos. É nela que está a pesquisa científica, a extensão e o ensino. Que há problemas, quem não sabe? Mas será que não é justamente este universo de dificuldades que nos faz diferentes? Mais sensíveis com que se passa também fora da instituição e um pouco mais críticos com o que acontece a nossa volta?
          Está ou pelo menos deveria estar implícito a todos que, na verdade, nossos estudos não são gratuitos, e que é preciso dar retorno à sociedade, pois não é o estado benevolente que nos concede a graça de freqüentarmos as salas de aula. A educação é um direito de cada um de nós dentro da sociedade que sustenta esta Universidade, que paga por ela.
          É a educação o grande trunfo para igualdade e a verdadeira democracia. Homens educados são homens que possuem recursos para colocar em liberdade o seu pensamento e a liberdade maior é a que se conquista através de idéias, que não podem ser destruídas pela força e que, dependendo de sua intensidade, imortalizam-se geração após geração e mantém vivos aqueles que inicialmente as acenderam.
          E afinal, em que consiste este momento senão em um grande "Viva a Educação?" A conclusão de um curso superior em um país como o Brasil, com todas suas contradições e desigualdades sociais, significa a própria vitória da Educação: a vitória das idéias. A nossa vitória.
          Para finalizar, gostaria de enfatizar que esse momento não é um momento de tristeza porque nos despedimos. É um momento de admitir que a vida de cada um de nós é feita de fases. Tudo muda. O mundo muda, mudamos nós. Amadurecemos e não envelhecemos, só envelhece quem quer. Nossas prioridades mudam e mudarão, nossa leitura de mundo também. Não devemos nos entristecer porque as coisas acabaram, mas agradecermos porque elas existiram. Aliás, nada aqui acabou, muito pelo contrário, esse é tão somente o começo, o ponto de partida para uma geração com vontade e disposição para mudar as coisas. Mudar a própria sina e mudar a realidade que nos cerca.
          Ainda gostaria de falar de tanta coisa, de relembrar tantos fatos e situações, mas como não pretendo tornar a cerimônia mais longa do que já é, faço aqui, inspirado por Ricardo Ramos um dos maiores e mais ousados contistas do nosso tempo, um circuito que não será fechado, pois é apenas o começo. E começa assim:
          
          Vestibular, ansiedade, lista, matrícula, kit bixo, filiações, pedágio, trote, integração, calouros, veteranos, amigos, hino, moradia, pensão, república, busão, aula trote, festa em república, festa em chácara, pessoas novas, diferentes, estranhas, legais, professores, boatos, mitos, aulas, provas, blocos, auditórios, anfi-teatros, cantinas, biblioteca, livros, multa, salinhas, conversa, psiu!, bronca, , CA’s, DAF, assembléias, paralisações, greve, opiniões, cartazes, corredores, escadas, gatos, teorias, teóricos, teoremas, trabalhos em grupo, monografias, pesquisa, murais, mais festas, mais provas, notas, risadas, lágrimas, SUB’s, REC’s, DP’s, madrugadas em claro, pólo, laboratórios, amigos, xérox, xérox reduzido, semanas, congressos, simpósios, churrascos, caronas, jogos, intercursos, interunesp, coral, teatro, sarais, apelidos, estágios, TCC, rifas, formatura, convites, colação, discurso, aqui, agora e...muito obrigado.

Isaac Ruy

29 agosto 2010

Recluso



Estava preso havia anos e a escuridão era sua única companhia.
A reclusão para o aprendizado.
Queria aprender a valorizar a beleza simples das coisas e a desenvolver a paciência que tanto admirava nos sábios.
Na saída foi tão ávido em direção à luz que ficou cego instantaneamente.
Não tinha aprendido nada. 

Isaac Ruy


12 agosto 2010

Eco

Disse o que queria dizer
e ouviu o que não queria ouvir.

Isaac Ruy



essa imagem é uma brincadeira com a ambiguidade da palavra eco e do desenho cíclico.

11 julho 2010

Sem obstáculos

 Om gum ganapatayei namaha 
Om gum ganapatayei namaha
 Om gum ganapatayei namaha 
Om gum ganapatayei namaha
 Om gum ganapatayei namaha 
Om gum ganapatayei namaha
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Om gum ganapatayei namaha
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Om gum ganapatayei namaha
 Om gum ganapatayei namaha 
Om gum ganapatayei namaha

Isaac Ruy 

13 março 2010

Originalidade

Quer ser tão diferente de todo mundo que acaba igual a todo mundo, pois todo mundo quer ser diferente de todo mundo, logo a única maneira de ser diferente de todo mundo é ser igual a todo mundo.


Isaac Ruy

29 janeiro 2010

Estratégia


Sorria...
frágil
enquanto a rainha
ágil
se aproximava.
Disseram juntos:
_ Mate.

Isaac Ruy

07 janeiro 2010

Versos pluviais



Das nuvens de meus pensamentos
letras
pingam
em
gotas,
palavras fluem em enxurradas.
Idéiasrelâmpagos.
Gritos. Trovões.

Dilúvio de rimas de risos de medos de cheiros de choros de imagens de gostos de gestos de sonhos de sons...
Dilúvio de vida.

Garoa fina... calmaria...

Chovo, em forma de poema.

Isaac Ruy


Imagem de Valdinei Calvento, cujo blog Igual Você, que tem como descrição "Desaprendendo para viver em um mundo novo", traz informações e idéias para práticas saudáveis e de preocupação ambiental, além de desenhos e ilustrações maravilhosas e inspiradoras, como a imagemde cima, que aparecerão frequentemente por aqui.
Indico.

11 dezembro 2009

Proverbo italiano

"Chi pò, non vò; chi vò, non pò; chi sà, non fà; chi fà, non sà; e così, male il mondo và."

Quem pode, não quer; quem quer, não pode; quem sabe, não faz; quem faz, não sabe; e assim, o mundo vai mal.


27 novembro 2009

Surreal

O rei ainda comanda.
A chuva pinga no balde.
O alvo é feito de sombras,
a fruta, caída, bichada.

Enquanto a água inunda as letras
e a caixa vermelha é trancada,
o sol colore as cortinas,
as pedras quebram moinhos.

"a estrela não virá com a noite,
mas os gatos continuarão noturnos.
Então o espelho refletirá a imagem
que só os cegos olhos vêem."

As cartas foram em branco,
mas a ironia acompanhava o envelope.

O hoje ainda promete
ouro aos que têm a chave.

"A espera se encerrará com a sorte
que a fada trará escondida."

Ainda venta forte...
O silêncio trouxe consigo
o fogo que exala lembranças.

Os verbos, os números, os fatos
perdem a razão contínua.
Os dentes continuam cerrados,
a mente, aberta, escancarada.

"chegará o dia
em que as moscas não zombarão
do lixo que as alimenta."

Isaac Ruy

29 agosto 2009

Pedra

sobre
pedra
sobre
pedra

sobre
pedra
sobre
pedra

sobre
pedra
sobre

pedra
sobra
pó


Isaac Ruy

13 abril 2009

Liberdade! (?)



Isaac Ruy, 2008

Esse vestígio de revolução foi fotografado em um muro de São Paulo próximo a um ponto de ônibus.
Versos soltos de uma poesia marginal, pós moderna, provocante...
Um grito quase mudo, escondido entre cartazes de cartomantes,
promoções,
descontos,
igrejas
e políticos...
Desse jeito fica difícil de acreditar.

Isaac Ruy
Hoje em dia nem se preocupam em ser, ao menos, subliminares... aliás, será que agressão visual rende processo?