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10 março 2016

Naufrágio

o som grave dos trovões estremece as estruturas do que sobrou da embarcação
gritos destroços trevas e clarões se misturam
naufrágio
a onda bravia lança as ruínas contra as pedras
e dança e balança e ondula contra a lança o corpo quase sem vida
no ápice
o silêncio
sozinho jaz
entre espuma e sangue
o tempo se reconfigura
um canto doce alivia as feridas
entorpece
inebria
a tempestade ainda precipita
mas somente notas serenas pairam sobre o oceano
então
lentamente
afunda
num mergulho rumo ao infinito
se entrega ao mar
sem medo do que virá
sabe que retorna ao útero
de sua mãe
Iemanjá

Isaac Ruy

09 junho 2011

Clara

Clara, sinto falta de tua voz, por isso sussurro ao teu ouvido. Porque não cantas mais? O que farei nos dias tristes, como esse, sem tua voz?
Clara, tua palidez lânguida exala uma paz que se reflete no silêncio amargo deste salão. Pelas flores em teu cabelo e teu vestido branco rendado poderia dizer que estás vestida para uma festa, se todos a tua volta não estivessem de luto.
Clara, agora só resta a treva. Nossos olhos já não se encontram, pois tuas pálpebras rígidas não se movem, assim como não se encontram nossos lábios, pois os teus mantêm essa sobriedade fria. 
Clara, não sei se ainda sonhas, mas enquanto dormes teu sono, saibas que fico, insone, a velar-te, sonhando acordado com o dia em que despertaremos juntos no paraíso.
Isaac Ruy
 

16 maio 2011

Vid'areia

...e a vida
se esvai
como...
...areia,
...levada pelo vento,
...alheia,
ou...
e
s
c
o
r
r
i
d
a

pelo gargalo 
da 
ampulheta
de quem
anseia
por mais 
um 
grão
.

Isaac Ruy



02 maio 2011

Fluxo IX

e olhava com aquele olhar doce e provocante que sabia que realmente provocava a boca esboçava um sorriso mas só esboçava não queria que ele percebesse a felicidade que sentia em vê-lo comer todo o prato que preparara a cada garfada era um pequeno prazer que sentia e adorava ver que ele estava gostando então seus olhos se arregalaram ao mesmo tempo em que os dele notou que ele percebera que havia algo errado não se preocupe querido vai ser rápido e se levantou com a taça de tinto espumante para ver os instantes finais pois agora ele já agonizava no chão com vômito e espuma vermelha de sangue escorrendo pela boca e nariz e então ela sorriu e esperou alguns segundos ali olhando antes de ter certeza que podia retirar a mesa e olhava com aquele olhar sério e calmo que sabia que realmente acalmava a boca mastigava a comida insistentemente mas só insistia para que ela não percebesse que o  jantar que ela preparara com tanto carinho estava com gosto de remédio a cada garfada era uma tortura mas sorria como se estivesse gostando então seus olhos se arregalaram ao mesmo tempo em que os dela percebeu que havia algo errado e que ela notara me ajude querida não estou respirando e caiu da cadeira e se contorcia com a necessidade de ar que ardia a garganta e vomitou o jantar e o vinho acompanhado de uma espuma amarga de sangue e então já não enxergava mais mas mesmo sem ver sentia que naquele último instante a mulher o observava e sorria 
Isaac Ruy



09 abril 2011

Fotos de Isaac Ruy

PEIXE NUVEM - tirada com o celular
VAGOS VAGÕES VAGOS - estação ferroviária de Catanduva

ÉDEN - fazenda de meus avós maternos 

ACORDE(ON) - músico que tocava na calçada da Liberdade, São Paulo.


Isaac Ruy

06 março 2011

Perda

olhos fechados,
gritos abafados,
-a dor de uma perda não cura jamais - 
mas quem perde mais?
quem parte ou quem fica?

enquanto um suplica
outro pede paz...

Isaac Ruy

Música que compus para a trilha do espetáculo "As mortas de nossa ilha" em 2006.
Saudades do grupo e do espetáculo... aiai

 

17 fevereiro 2011

O último poema

       Escreveu letra por letra na pedra - queria que o poema ficasse ali para sempre.
       As marteladas foram fortes e a marca estava funda. Sentia como se cada martelada gravasse uma ferida em seu peito - assim como gravava no mármore.
       Estava certo quem disse que poemas de amor doiam; esse, em especial, era o mais doído que escrevera, talvez por saber que seria o último, lhe faltaria a inspiração.
       Findo o poema, o levou para a exposição.
       Nunca mostrara nenhuma de suas obras a ninguém, nem a ela, a quem se destinavam as doces palavras, mas esse era especial.
       Deixou o epitáfio sobre o túmulo da amada, sua musa, e voltou para o antigo anonimato.

Isaac Ruy

24 outubro 2010

Fim

Ele então a viu chegar,
pálida em seu longo vestido negro;
os cabelos ondulando em um vento inexistente,
e na mão direita a foice que tudo encerra.

Um último murmúrio antes da partida:
__ Não te imaginava mais linda.

Isaac Ruy

06 setembro 2010

Vitrola

       Chovia. Lentamente, pegou o disco empoeirado e, cambaleando, encostou levemente a agulha pontiaguda com as mãos trêmulas.
      Sentou-se. No escuro, a melodia doce entoava reminiscências que surgiam suaves ao soar das notas de um passado resplandecente.
       Recordou os brinquedos, o olhar da avó, a casa amarela, os amigos da escola, a morte do gato, o tombo do pé de manga, os sonhos, o primeiro beijo - e como eram macios os cabelos dela, a nova rua, a nova casa, o barulho do portão, as fotos da família, os parceiros de jogo, a primeira namorada - e única, o cheiro do perfume dela e o som da respiração ofegante enquanto dormia encostada em seu peito e o modo como ela sorria quando na verdade estava triste e a decepção de não poder ser mãe e a inocente culpa que ela carregava. E se lembrou das brigas, da bebida, das noites na rua, das lágrimas dela, das malas na saída da porta e da saudade na entrada e das cartas não respondidas e amontoadas na caixa vermelha sobre a estante e da saudade que não envelheceu com ele mesmo depois de dezenas de anos sem notícas. E percebeu que estava só, que também não passava de uma lembrança, uma vaga recordação do que um dia fora, e que não havia, ou não ouvia, mais som chuva e murmúrio na rua e ranger de cadeira e nem respiração ouvia, ou havia, somente o silêncio...
somente o silêncio...
somente o silêncio...
somente o silêncio...
somente o silêncio...
somente o silêncio...
somente o silêncio...

Isaac Ruy




05 agosto 2010

Geriátrica metafórica

       Estava cansada. Pensou em escrever um bilhete, uma carta, mas estava cansada.
       Sentou-se. Pegou as longas agulhas com os dedos longos e começou a tricotar a própria forca.
Isaac Ruy

02 agosto 2010

Túmulo

Parecia cena de filme.
Chovia.
Os guarda-chuvas pretos dominavam a cena.
Sons de choro, cochichos, olhares.
Depois tudo passou, tudo mudou.

Fazia sol.
O dia estava azulado.
Os pássaros cantavam ao som do farfalhar das árvores.
O cemitério estava vazio,
mas as rosas vermelhas estavam ali, intactas, relembrando o sangue derramado.
Seriam o único vestígio de vida,
se não fossem feitas de plástico.


Isaac Ruy

14 julho 2010

Fluxo III

quando saiu de casa sentiu que faltava alguma coisa tinha aquela sensação estranha de que alguma coisa importante estava faltando mas conferiu as portas antes de sair a chave estava no bolso dinheiro documentos batom pente espelho maquiagem camisinha celular e alguns cartões e papéis estavam na bolsa mas o que poderia ter ficado em casa era o que não deixava ela se concentrar enquanto descia as escadas do prédio passou por um estranho que subia não gostava de cumprimentar estranhos mas este a cumprimentou e teve que retribuir talvez não fosse estranho talvez se lembrasse de quem ele era depois de lembrar o que havia esquecido em casa na garagem entrou no carro e a poucos quarteirões de casa atravessou o sinal vermelho e bateu de frente em um caminhão de mudanças e enquanto dava os últimos suspiros percebeu que estava sem óculos
Isaac Ruy

24 junho 2010

Varal



Ouvem-se tiros.
Cessam-se todos os movimentos e ruídos da casa.
Mas, lá fora, as roupas ainda dançam no varal ao soar suave do vento.


Isaac Ruy

17 junho 2010

Voltas

...então a bela moça de alva pele e longos cabelos louros perguntou ao estranho e misterioso velho da estrada tortuosa que caminho tomar, "siga o obscuro caminho da direita...", mas a bela moça de alva pele e longos cabelos louros não confiou nas palavras guias do estranho e misterioso velho da estrada tortuosa, seguiu a clara e bela trilha da esquerda, ao invés do obscuro caminho da direita, e acabou caindo no profundo precipício do arrependimento, tendo uma morte lenta e dolorida enquanto se arrependia da tola e desconfiada decisão de não seguir os sábios conselhos do estranho e misterioso velho da estrada...

Isaac Ruy

13 maio 2010

Fluxo I

tanta coisa passava na sua cabeça naquele instante que não conseguia raciocinar muito bem afinal o que ele poderia querer com ela ali naquele lugar porque nunca tinha ido até ali mesmo com a bela paisagem que podia-se ver daquele ponto nunca tinha ido até ali com ninguém era estranho uma atitude estranha realmente por isso trouxe a faca no bolso era sempre bom estar prevenida contra qualquer tentativa estranha que pudesse vir daquele homem mesmo que trocassem olhares e sorrisos de vez em quando era muito estranho marcar um encontro em um lugar estranho ele chegou atrasado mas sorrindo como sempre aquele sorriso que sempre deixava ela sem saber o que fazer de repente antes de dizer qualquer coisa fez um movimento que realmente a surpreendeu e antes que pudesse finalizá-lo ela já estava com a faca em seu peito perfurando diversas vezes e depois correndo sem ao menos ver as belas flores amarelas que ele trazia escondidas no casaco

Isaac Ruy
 

Me peguei a lembrar de uma amiga e sentir saudades também... me lembrei também de um texto que ela escreveu, "Máquina de Limpeza", que era realmente muito interessante e que, quem sabe se ela autorizar, eu publico aqui também um dia... 
Enfim, o texto dela me inspirou a escrever o meu, publicado acima, não pela temática, mas pelo estilo... adoro me sentir inspirado...
Aliás pretendo que, assim como os dela, esse seja o primeiro de uma série...
Beijos Paula!

29 abril 2010

Vestígio

Tudo passou,
mas os lírios murchos continuam sobre a mesa.

Isaac Ruy

12 abril 2010

Mosca

Observava atenciosamente a mosca que nadava em sua sopa, o modo como lutava para salvar a própria vida.
Vida perdida pela fome.
Olhou.
Pensou.
Refletiu.
Aquela seria a primeira refeição do dia, e já era noite.
Se sentiu meio mosca.
A comeu com sopa e tudo - sabia que um dia inverteriam os papéis.

Isaac Ruy

15 março 2010

Esperança

Foi-se embora sem se despedir,
mas deixou a porta aberta.
Isaac Ruy

11 março 2010

?!...

Errou que estava errado.
Acertou quando errou que estava certo.
Agora acertos e erros não importavam.

Morreu na dúvida.

Isaac Ruy