18 julho 2009

Recíproca

O jantar começou em silêncio.
Ela estava séria, como sempre.
Ele sorria imaginando os efeitos da água sanitária na sopa dela.
Queria vê-la morrer um pouco a cada dia.
Mal sabia ele do vidro moído que sempre ingeria.
O amor acabou, mas a recíproca ainda era a mesma.
O jantar terminou em silêncio.
Isaac Ruy
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16 julho 2009

Poética do Eremita

.

No deserto
estão secas
as pedras que no mar se molhavam
a semelhança confunde o eremita
que solitário demais
passou o tempo
entregando-se
à solitária memória
aqui a pedra seca
para o eremita
não perdeu
a qualidade úmida
de poder ter estado
ao pé do mar.


Fiama Hasse Pais Brandão



Poema de Fiama Hasse Pais Brandão...
belamente musicado por Adriana Calcanhotto no violão cello...
tanto o poema quanto a canção são incríveis...
Veja o vídeo da canção AQUI!

Isaac Ruy

13 julho 2009

Ocaso


O presente.
Embrulhado em um brilhante papel dourado
estava o som mais belo que já ouvira...
A canção da caixa de música era tão alegre quanto o tempo de [risos e sonhos era.

A velha caixa de música
ainda soa as mesmas velhas notas da velha música da velha [caixa velha.

O segredo.
Escondido na parte mais alta da estante
ficava o poema mais belo que já lera...
Os versos do livro eram tão intensos quanto o tempo de amores e [sonhos era.

O velho livro de poesia
ainda tem as mesmas velhas palavras das velhas poesias do [velho livro velho.

O tesouro.
Guardada no fundo da última gaveta
deixava a imagem mais bela que já vira.
A foto dos amigos era tão emocionante quanto o tempo de [mudanças e sonhos era.

O velho álbum de fotos
ainda guarda as velhas lembranças das velhas fotos do velho [álbum velho.

O vazio.
Perdida na mais remota memória
estava a vida mais bela que vivera...
A alma de alguém era tão única quanto o tempo de medos e [sonhos era.

A velha mulher sentada na cadeira
ainda chora as velhas lágrimas da velha mulher sentada na [velha cadeira velha.

O nada.
Tudo estava esquecido...
não havia mais canção,
não havia mais versos,
não havia mais fotos,
não havia mais alma,
não havia mais sonhos,

mas... ainda havia a velha velha.




.Isaac Ruy



Poema com o qual recebi uma menção distinta no Prêmio Internacional de Poesia Nosside 2009
Isaac Ruy
Se a poesia faz refletir... a foto reflete!

12 julho 2009

Fuga

.
Cansada de tantas brigas resolveu sair de casa.
Voltou.
Esquecera de pôr o lixo para fora.


Isaac Ruy
Minha primeira contribuição para o blog coletivo nanocontos.blogspot.com.
Uma ótima idéia para partilhar arte.
Participo e indico.

11 julho 2009

Lareira

.
em
poucos
segundos
o
beijo
ardente
transformou-se
em
cinzas
retorcidas
no
fogo
incandescente

enquanto a gélida lágrima apagava a lembrança fria do instante


Isaac Ruy

28 junho 2009

Antes de ir ao baile

Vejo nos cacos do espelho
vestígios das pétalas de narciso

Tudo me parece intenso:
o ranger das pernas da cadeira,
o aroma do café amargo,
as roupas coloridas no varal...
Meus sentidos se confundem

Poucas folhas me restam nesse outono solitário

As mãos trêmulas seguram o retrato
Lágrimas, que se perdem no labirinto de rugas,
afogam-me de saudade
nessas paredes que me cercam

Reminiscências inebriam, atordoam.
Quem dera a existência fosse eterna
ou que déssemos juntos o adeus

És anjo e faço-me Ícaro.
Deixo nas palavras meu silêncio,
meu grito mudo,
e na gélida espera faço-me cinzas,
aguardando o reencontro
para dançarmos a última valsa



Isaac Ruy



Poema vencedor da Menzione Particolare del Premio Internazionale di Poesia Nosside di 2008.

22 junho 2009

Pensamentos noturnos

talvez a inspiração venha enquanto durmo...
talvez um sonho,
talvez um pesadelo,
ou talvez o descanso,
ou, ainda talvez, a paz.

Mas... se for o amor, espero estar acordado!

Isaac Ruy
nada de lápis e papel na mesa.
nada de máquina de escrever inquieta.
um computador, alguns deletes e enters, muitas idéias e - a companheira - Insônia.
Se não deitar não durmo.
Esc e Power... um riso gerundiando (O seu computador está sendo desligado)
Cama... escuro... silêncio... (...)

19 abril 2009

Último ato

Fria
a taça
cai
O desfazer agudo do cristal
se funde aos compassos do relógio
____________ ___em si maior]
Paz
O corpo jaz, agora mudo, sobre o carpete
________ ___de veludo azul-profundo]
O cachimbo repousa, ainda com as marcas de saliva
____________________ ___da última tragada ]
O cenário se desfaz
Recordações brincam em carrossel e
__________________ ____risos]
O eco de uma canção instiga as lágrimas
O vinho se espalha entre os cacos
______________ ___da cena]
O sangue ainda corre
Foco
O olhar mantém o monólogo
Catarse
Clímax
No chão, o respirar ofegante
_____________ ___pára]
O sonhar além do beijo
__________ __pára]
A vida...
___Não]
Essa não pára nunca
O espetáculo não pode parar
Silêncio
As cortinas se fecham sem aplausos


Isaac Ruy


Poesia escrita em setembro de 2007.
Dizem que minutos antes de morrer assistimos à toda nossa vida em apenas um segundo... ...acho que vou precisar de, pelo menos, alguns minutos de flash back...
...afinal não quero perder nenhum momento do espetáculo que vivi, dos cenários por que passei, das personagens com quem cruzei e dos improvisos que aprendi.

18 abril 2009

Xeque-Morte

Enterro de avó...

Cerimônia simples:
lágrimas, gemidos, oração, flores, reencontros com conhecidos, café, reencontro com desconhecidos - sim, isso é possível -, mais lágrimas, lembranças coletivas, nostalgia,
cortejo (mesmo túmulo do avô),
bodas de morte,
um pouco de terra, muito silêncio...

e,
no ar,
o cheiro do xeque-mate da morte.
Isaac Ruy
E nada mais.