14 julho 2013

Ostracismo

Sem conseguir um papel no cinema, tv ou teatro, vendeu suas últimas pérolas para pagar o jantar.
Isaac Ruy

06 julho 2013

Presente de casamento

A ex-mulher recebeu o convite com surpresa.
Rasgou em mil pedacinhos, queimou e jogou as cinzas pela descarga.
A entrada para a festa, guardou.
Colou na geladeira, com imã.
No dia marcado, compareceu.

Foi de preto, feito viúva, e fez questão de pegar o buquê.
Guardaria as rosas para a coroa de flores do casal.
Escondida, cortara o cabo do freio da limusine antes de entrar na igreja.
Presente de casamento.
Não comeu nada na festa, só bebia, sozinha, num canto -
nada muito forte, para não perder nenhum detalhe da saída dos noivos.
Hora de agir.
Correu, para ver de perto o acidente.
Aguardou na esquina, na esperança de que algo acontecesse por perto.
Acertou.
Gritos
e latinhas, amarradas, por barbante, e arrastadas, pelo chão.
Carro desgovernado.
Morreu atropelada.
Sem comer nenhum pedaço do bolo.

Pétalas vermelhas, no chão.



Isaac Ruy

23 maio 2013

Árida

tão seca, que só pó lhe percorria as veias, 
assim como somente o sal, das lágrimas evaporadas, lhe descia pelo rosto, 
o ventre murcho, vazio,
rachaduras já lhe marcavam a pele, farelos de cabelos pendiam da cabeça,
desmoronando em poeira, uma única coisa se avistava intacta nas ruínas do corpo que existira outrora,
uma grande pedra, lembrança sólida do que já foi um coração.



Isaac Ruy

Tramonto

Il regalo.
Avvolto in un brillante foglio dorato
Stava il suono più bello mai ascoltato…
La musica del carillon era tanto allegra, come il tempo delle risate e dei sogni.
Il vecchio carillon
Ancora suona le vecchie note della vecchia musica del vecchio carillon vecchio.

Il segreto.
Nascosto nell’angolo più alto della libreria
Stava il poema più bello mai letto…
I versi del libro erano tanto intensi, come il tempo degli amori e dei sogni.
Il vecchio libro di poesia
Ancora ha le stesse vecchie parole della vecchia poesia del vecchio libro vecchio.

Il tesoro
Lasciata in fondo all’ultimo cassetto
Stava l’immagine più bella mai vista.
La foto degli amici era tanto emozionante, come il tempo dei cambiamenti e dei sogni.
Il vecchio album di foto
Ancora conserva i vecchi ricordi delle vecchie foto del vecchio album vecchio.

Il vuoto.
Perduta nella più remota memoria
Stava la vita più bella mai vissuta…
L’anima di qualcuno era così unica, come il tempo delle paure e dei sogni.
La vecchia signora seduta sulla sedia
Ancora piange le vecchie lacrime della vecchia signora seduta sulla vecchia sedia vecchia.

Il niente.
Tutto è stato dimenticato…
Non ci sono più canzoni,
non ci sono più versi,
non ci sono più foto,
non c’è più l’anima,
non ci sono più sogni,
ma…
c’è ancora la vecchia vecchia.

Isaac Ruy




26 dezembro 2012

O último cigarro


     O último cigarro.
     O primeiro do dia.
     A primeira tragada lhe provocou uma certa tontura, típica do primeiro vestígio de fumaça invadindo brutalmente o pulmão.
     A última noite não lhe oferecera muitas recordações e o cheiro do último copo de whisky ainda lhe saia pelos poros. Não se lembrava da última vez em que saíra de casa - dias, semanas?
     O primeiro gesto foi se sentar e soltar lentamente a fumaça, desenhando uma cortina branca pela luz fraca dos primeiros raios de sol que passavam pela janela. Os cortes, rasos, no pulso, ainda ardiam.
             Cinzas no chão.
     O último cigarro seria um momento para reflexão, planejamento, mudanças - 
o primeiro pensamento que lhe veio a cabeça, enquanto tragava novamente, dessa vez mais pausadamente, quase um suspiro.
             Fumaça
     As últimas horas da noite anterior lhe vieram em flashes à mente.
     As primeiras lembranças, vagas, não lhe serviram como base para um reflexão. Estranhas. Esparças. Esfumaçadas
             Cinzas no chão
             Melhor ir mais longe, no passado. Tragou novamente.
     Primeiro, lembrou-se rapidamente da mãe. Estranho, pensou.
             Fumaça
     A última vez que visitara a mãe, prometera que iria mudar, parar de fumar, lembrou-se.
             Melhor pensar em outra coisa. Tragou. Profundamente.

             Fumaça

             Cinzas.
             Melhor pensar em alguma coisa, pensou.
             Tragou.
             Fumaça.
             Cinzas
     Primeiro pensar, depois refletir. Mas pensar em quê? Não havia nada para pensar.
             Melhor, então, planejar, buscar mudanças, tragou.
             Fumaça.
     Última tragada, não há mais tempo.
             Cinzas.
             Melhor deixar isso pra lá, bobagem, concluiu jogando a bituca no vaso do cacto morto.
             Fumaça
             Melhor apanhar mais um maço na gaveta antes de sair, refletiu, talvez passasse na casa da mãe mais tarde, planejou, e não queria ficar sem cigarros pelo caminho.
     Mudou o cato de lugar, talvez voltasse a viver com um pouco de sol; soprou as cinzas do chão e saiu sem protetor solar.



Isaac Ruy

21 julho 2012

Voa passarinho

O pássaro colorido da avó ficava preso na gaiola. 
Não cantava, simplesmente observava, tristemente, àqueles que voavam livres ou descansavam no fio de alta tensão.
O menino olhou por um tempo e coçou a cabeça desconfiado.
Pegou uma cadeira, subiu e abriu a portinhola da gaiola, vagarosamente, para a avó não acordar e descobrir a arte.
Nhééééc...
O pássaro permaneceu imóvel, no fundo da gaiola.
__Voa passarinho!
Nada.
Subiu novamente na cadeira e envolveu o pássaro com uma das mãos, cuidadosamente, para não machucar o frágil corpo da ave. 
Depois de retirá-lo da gaiola, esticou os dedos.
__Voa passarinho!
Nada.
Uma ideia.
Pulou na cadeira e com um impulso forte lançou, violentamente, o pássaro o mais alto que conseguiu.
Paf!
O pássaro se chocou, violentamente, contra o gerador do poste de energia e, depois de eletrocutado, caiu esfumaçante no chão.
O garoto se aproximou do pássaro e o tocou com a ponta do tênis.
__Voa passarinho.
Nada.
Escutou os passos da avó se arrastando pelo corredor.
Escalou a cadeira, jogou o corpo negro do pássaro, rapidamente, pela portinhola da gaiola, fechou e se sentou na cadeira, observando, tristemente, àqueles que voavam livres ou descansavam no fio de alta tensão. 
A avó olhou por um tempo e coçou a cabeça desconfiada. 
Abriu o portão.
Nhééééc...
__Vai brincar, menino!
Nada.
__Então vem me ajudar a dar comida pro passarinho.

Desesperadamente, o menino voou pela rua para aproveitar os últimos minutos de liberdade.


Isaac Ruy

11 junho 2012

Influente



O mendigo, folheando o jornal, que lhe serviria de coberta, viu uma notícia anunciando que a obra "A fonte", de Marcel Duchamp, fora escolhida como a arte moderna mais influente da história.
Perguntou a uma mulher de óculos, sentada no ponto de ônibus, com cara de professora, o que significava "influente". Ela não soube explicar, ou não quis, mas o menino, que estava ao seu lado, retirou um enorme livro da mochila e leu em voz alta, para que ele escutasse. "Influente: que influi; que tem autoridade, prestígio; que exerce influência sobre os demais".
O mendigo voltou para o banco e, depois de muito observar a imagem do "mictório assinado", que ilustrava a reportagem, levantou-se e começou uma caminhada com passos firmes e destino certo.
Influenciado pela obra, pretendia assinar todos os mictórios e vasos sanitários do banheiro público da praça.
No caminho, já imaginava a quantos não "influenciaria" com aquele gesto simples, mas artístico, de assinar o local onde os homens urinam. Teria, desse modo, "prestígio, autoridade".
Chegando ao banheiro, notou que já havia assinaturas por todo lado: paredes, portas, chão, teto e até no espelho quebrado. De fato, não havia nenhuma assinatura nos mictórios, mas naquele momento lhe pareceu tão menor, insignificante e tolo assinar naquele lugar, que se escondeu em uma das cabines e ficou ali, cabeça baixa e em silêncio, sentindo-se envergonhado a pensar que aquele era, de fato, o lugar mais apropriado para que assinasse.
Levantando-se para sair, observou a quantidade de desenhos e frases escritas na porta. Seria aquilo arte também? Provavelmente sim. Ao menos parecia ter dado mais trabalho e ser mais artístico que a assinatura no mictório.
Questionou-se, refletiu e, depois de muito ler e observar a arte que o encarava, sentou-se e, “influenciado” pelas pornografias descritas e ilustradas na porta, masturbou-se ali mesmo.
Saiu do banheiro, voltou para a praça, jogou a página da reportagem no lixo, se cobriu com o restante do jornal e, feliz, refletiu que, de fato, ele existia apenas para ser influenciado, não para influenciar ninguém.




Isaac Ruy



02 junho 2012

Sonhos


Noite.

Todos em silêncio.
Os sonhos embalam todos na casa...
os que dormem o sono dos justos
e o ladrão que furta a TV plana de LED 46 polegadas com conversor digital integrado full HD 3D/internet vídeo.
Isaac Ruy



01 junho 2012

Arrepio ambíguo

Noite chuvosa,
os corpos nus,
molhados,
deitados no chão,
arrepiados...

frio ou tesão?

Isaac Ruy

31 maio 2012

Fênix

apenas uma fagulha...
para renascer,
brilhar o poder,
voar a liberdade
e morrer,
queimando em cinzas,
até restar
apenas uma fagulha...



Isaac Ruy