23 janeiro 2012

Pas de deux

A bailarina, desiludida,
apertou o corpete novo, escolheu o mais belo tutu, vestiu a meia, prendeu o cabelo num coque apertado, se maquiou, colocou a sapatilha de ponta, deu um laço em cada fita, passou a corda no pescoço
e deu sua última pirueta pendurada no ventilador de teto
- a pirueta mais longa de toda sua carreira.


Isaac Ruy



22 janeiro 2012

PÓ

Bastou um sorriso.
Desfiz-me em pó
e (in)ventei-me pelo ar.
Leve, me espalhei por seus pelos e cabelos:
leve-me, agora sou teu.
Deixe-me sentir suas curvas, seu balanço,
adentrar suas intimidades
antes que a chuva nos separe
e eu escorra
- solitário -
por seu corpo molhado
de volta ao barro da criação.

Isaac Ruy

02 janeiro 2012

Meu Deus!

Ali:
trabalhando, comprando, comendo
- repetidamente e compulsivamente.
Concentrado, se divertindo
                                         frente a TV
distraidamente...
Meu Deus!
é uma máquina.

Isaac Ruy

07 dezembro 2011

Sociedade anônima



I
acordou no chão frio
com a boca amarga
e com a roupa suja
de vômito seco
pensou em quanto tempo 
estava ali
mas deitou novamente
não importava 
era só mais um dia 
como qualquer outro


II
fumou o cigarro
sentado na privada
um vestígio de prazer
num dia difícil
para não desconfiarem
deu uma descarga
que levou junto
a bituca
e seus sonhos
de criança


III
aurora
juntou as latas de refrigerante
caixas de doces
garrafas de suco
embalagens de salgadinhos
amontoou no carrinho
e então fez sua primeira
e única
refeição do dia
crepúsculo


IV
penteou os cabelos
passou batom
rosa
sua cor preferida
colocou o vestido
rosa
seu preferido
e foi trocar sua infância
por dinheiro
na esquina mais próxima


V
passou o dia
na fila
gemendo 
chorando
implorando uma chance
para aquela que 
agora
dormia 
no túmulo
de sua barriga


VI
noite de chuva
encontrou um canto seco
para deitar
se cobriu com o jornal
molhado
que estampava a notícia
da morte do amigo
queimado
os olhos abertos
também choviam


VII
atento
olhava a mãe e a criança
o modo como sorriam
o carinho que lhe era estranho
ausente
num ato de coragem
se aproximou 
e levou a bolsa 
para matar a fome
que lhe acariciava as entranhas


VIII
dividia o que tinha
com os amigos
naquela 
noite
era uma lata
queimando crack
uma ponta de baseado
e um pouco de
tristeza
e abandono


IX
no semáforo
passava pelos carros
pedindo ajuda 
por ser surdo-mudo
os motoristas
em solidariedade
se faziam
de cegos
protegidos pelos vidros fechados
e pelos óculos de sol

X
na calçada
as mãos
como pétalas
se abriam para pedir a esmola
os pés
cheios de feridas
espinhavam o olhar alheio
lhe garantiam a subsistência
e não saravam
graças a Deus


Isaac Ruy





29 novembro 2011

Fluxo XI

olhou para os dois lados do corredor não viu ninguém pôde então sair da sala ainda que silenciosamente a passos curtos e leves esses sapatos fazem muito barulho tirou-os  ninguém pode ouvir um ruído preciso ser discreta ou poderão desconfiar de algo guardou-os na bolsa que trazia ao lado passou pelas outras portas fechadas rapidamente para não ser surpreendida por ninguém que saísse para um café ou uma visita ao banheiro mas no fim do corredor sentiu um calafrio a última porta estava aberta justamente a porta onde o maior vigilante se escondia uma criminosa uma bandida todos gritarão se eu for pega se arrastou até o beiral enquanto os ouvidos atentos se aguçavam em busca de sons mínimos melhor voltar e desistir do delito mas um barulho a surpreendeu vindo da porta ao lado não pode pensar atravessou a sala da porta aberta que por sorte estava vazia e entrou na primeira porta que encontrou ali no escuro escutava as risadas dos que saiam e conversas dos que transitavam pelo corredor passou a noite no armário ao lado da sala do chefe para não ter que explicar a tentativa de sair 15 minutos mais cedo

Isaac Ruy



04 novembro 2011

Top

Linda, nariz empinado, encarou as vitrines, não olhou para os preços, rica, olhar de modelo na passarela.
Elegante, batom e biquinho, desfilou pelo espelho, não olhou os defeitos, magra, rostinho de modelo de revista.
Sensual, lânguido rebolado, atravessou a avenida, não olhou para nada, fina, corpinho de  modelo atropelada.

Isaac Ruy

24 outubro 2011

Flores

A empregada atendeu à porta.
Quando adentrou a sala, com o enorme buquê a mão, recebeu um olhar rápido da patroa que abriu um enorme sorriso.
__É lindo "né", dona Gisela? - disse a empregada, também sorrindo.
__É, e me dê antes que estrague com suas mãos imundas - esbravejou a patroa, destruindo o sorriso da empregada e ocultando o próprio por alguns instantes.
__Me desculpe dona Gisela, eu só "tava" elogian...
__Pare de falar e vá buscar um vaso para colocar minhas flores.
A empregada saiu da sala com os olhos marejados enquanto a patroa olhava as flores com os olhos brilhantes.
Esperou a empregada voltar com o vaso antes de ler o cartão, fazia questão de ler em voz alta para colocá-la em seu lugar.
__Veja, Jandira - disse a patroa com um sorriso de superioridade - "Querida, essas flores nem se comparam à sua beleza, mas espero que sirvam para alegrar seu dia, de seu admirador secreto". 
__Muito bonito, dona Gisela - sorriu a empregada.
__Você já recebeu flores assim, Jandira? - sorriu a patroa balançando o cartão enquanto a empregada em silêncio balançava a cabeça - Eu já imaginava... afinal uma empregada nunca rece... - o sorriso se desfez em olhos arregalados de susto mirando o cartão.
__O que aconteceu, dona Gisela? - perguntou, com um olhar desconfiado, a empregada.
__Nada, - sorriu a patroa - veja você mesma, só não vá sujar - disse, entregando o cartão à empregada.
A empregada olhou o cartão, sorriu humilhada e o devolveu à patroa.
__Muito bonito mesmo o que ele escreveu, dona Gisela, letra bonita... Agora vou terminar o jantar.
__Vai...  - a patroa sorriu se abanando com o cartão até ver a empregada sumir na cozinha.
Assim que se encontrou sozinha rasgou o cartão e jogou no lixo. Não queria correr o risco de alguém ver que não era seu nome escrito no outro lado do cartão. Agora, tranquila, podia, realmente, sorrir aliviada - sabia que nem todos os empregados tinham olhos analfabetos como Jandira.

Isaac Ruy

17 outubro 2011

Vitória muda

No quarto, deitada, ela o viu chegar e permanceu em silêncio.
Ele tentou se explicar, mas ela não disse uma palavra.
Muda, se virou e dormiu.
Ele passou a noite em claro.

Preferia quando ela gritava, ao menos parecia que ele tinha um pouco de razão.
O silêncio era um argumento impossível de contestar, rebater e questionar.
Ela sabia disso.

Isaac Ruy

Túmulo

Prometeu que sua boca seria um túmulo.
Mas só cumpriu a promessa depois que já estava enterrado.

Isaac Ruy

01 outubro 2011

Borderline

Era uma pessoa difícil, vivia cortando relações. 
No fim, sozinha, só lhe restaram as cicatrizes.

Isaac Ruy