18 abril 2011

A avó e a voz do pensamento

Silêncio.
Deitado no sofá fingia que lia enquanto as lembranças passeavam pelas pernas, peitos e bunda da nova professora da escola.
A noite estava tão quieta que seria possível ouvir os pensamentos, pensou.
Tratou de ligar a TV, a avó estava na sala tricotando e, apesar de ter péssima audição, preferia não correr riscos.
Avó tem dessas coisas de saber o que os mais novos pensam. Se ouviu alguma coisa não sei, mas lhe lançou um olhar desconfiado por cima dos óculos.
Tratou de pensar em como gostava da comida dela.
Estranho. 
Agora ganhou um sorriso banguela da velha.

Isaac Ruy

11 abril 2011

Fluxo VIII

estava tão nervosa nada poderia dar errado naquele dia pensava enquanto esperava na porta da igreja ao lado do pai mas então a noivinha empacou a criança irritante estava parada aos berros até que alguém a tirou do caminho tudo bem sem problemas poderia editar isso na filmagem e começou a marcha nupcial e olhares e sorrisos e lágrimas pelo corredor até que avistou a ex do futuro marido afinal quem a convidou tudo bem sem problemas sorriu era ela quem caminhava para o altar vestida de branco o pai ainda lhe pisou no vestido antes de entregá-la ao noivo ainda bem sem problemas só sujou não rasgou e então horas de um padre careca falando e salivando pena que não pôde escolher o padre teria escolhido um que salivasse menos estava tão distraída reparando nas gotículas de saliva que quase perdeu a hora de dizer sim mas disse ainda bem sem problemas depois foram beijos e abraços e parabéns e esperou a ex sumir de vista para jogar o buquê não queria correr o risco de a indesejável sair dali com algo que fosse seu e jogou e a prima solteira de 47 anos pegou pobre coitada mais um para a coleção tudo bem ao menos livrou o noivo da outra sem problemas acreditava até que flagrou os dois se agarrando no confessionário

Isaac Ruy


Para ler os outros Fluxos clique AQUI!
 

09 abril 2011

Fotos de Isaac Ruy

PEIXE NUVEM - tirada com o celular
VAGOS VAGÕES VAGOS - estação ferroviária de Catanduva

ÉDEN - fazenda de meus avós maternos 

ACORDE(ON) - músico que tocava na calçada da Liberdade, São Paulo.


Isaac Ruy

08 abril 2011

História sobre o depois de um ano de sexo

Ele _ Hoje você chegou rápido ao orgasmo...
Ela _ ... é ...
Ele _ ...
Ela _ ...
Ele _ Estava com tesão?
Ela _ ...
Ele _ ...
Ela _ É que estou com um pouco de dor de cabeça.
Ele _ humm...
Ela _ ...
Ele _ Mas no que isso influencia?
Ela _ ...
Ele _ ...
Ela _ Nada.
Ele _ humm...
Ela _ ...
Ele _ Ah... agora entendi, você fingiu?
Ela _ Me desculpe Marcos, mas só quero ficar em silêncio e dormir logo.
Ele _ ...
Ela _ ...
Ele _ Não acredito que você fingiu... já fez isso antes?
Ela _...
Ele _ Fez?
Ela _ Não, Marcos, essa foi a primeira vez...
Ele _ ...
Ela _ ...
Ele _ ...
Ela _ ...
Ele _ Mas saiba que não está ganhando, não está 1 a 0 para você...
Ela _ Como assim?
Ele _ Eu também já fingi.
Ela _ ...
Ele _ Uma vez concordei e disse que tudo bem dormir sem transar, mas estava morrendo de vontade...
Ela _ ...
Ele _ ...
Ela _ ... 
Ele _ Merda. Acabei de perceber que você já está com 2 pontos...
Ele e Ela _ ... 
A luz se apaga.

Isaac Ruy
Esse texto é a continuação desse AQUI,
que, por sua vez, é a continuação desse PRIMEIRO.
Se puder, leia na ordem!

27 março 2011

Ecos(sistema)

       Estava triste, pensando sobre as infelicidades de sua vida, quando avistou algo pequeno que se locomovia lentamente aos seus pés. Aproximou-se e viu que se tratava, na verdade, de uma formiguinha carregando uma enorme pétala rosa.
       Observou o modo como a coitada se esforçava para carregar a pétala, que tinha mais que o triplo de seu tamanho e, provavelmente, de seu peso. Pensou que um dos motivos de sua infelicidade era o excesso de trabalho, mas também pensou como a formiga fazia esse esforço danado e não reclamava, seguia em frente rumo ao formigueiro.
       A viu desviar de buracos, escalar pedras e avançar lentamente pelo gramado. Refletiu que todo aquele esforço da pobre formiguinha mal seria recompensado, pois ela provavelmente entregaria a pétala para seus superiores sem receber um obrigado, assim como ela não recebia e era escravizada no departamento em que trabalhava.
       A formiguinha atravessou, então, uma enorme poça que a impedia de chegar ao formigueiro, lágrimas correram pelo rosto, pois mesmo com todo esse sofrimeto a pétala ainda era arrastada. Mas por qual motivo? Nem direito ao amor a pobre formiguinha teria, era só uma operária destinada ao trabalho enquanto outros passavam o dia amando e sendo amados, levando uma vida de luxo como reis, sem precisar conferir projetos e redigir relatórios ou passar os fins de semana solitários assistindo comédias românticas e jantando miojo.
       Quando a formiguinha saiu da água, faltavam poucos centímetros para chegar ao formigueiro e alcançar o objetivo da missão. Percebia-se que a pétala estava mais pesada, pois carregava algumas gotículas da poça, e que o caminhar da formiguinha era mais lento e desesperado. Ela então se decidiu e apressadamente deu um pisão bem firme esmagando a formiguinha com pétala e tudo. Percebeu, naquele momento, que só havia um modo de livrá-la do sofrimento e da solidão interior que a consumia.


Isaac Ruy

25 março 2011

Fluxo VII

não estava com muita fome mas sentia necessidade de comer talvez fosse gula ou talvez fosse instinto ou ainda talvez o cheiro da comida que exalava no ar não resistiu tirou os anéis apertados da mão e começou roendo as unhas e cada pedacinho era deliciado e roído até o ponto de mordiscar pedaços de carne das pontas dos dedos e mordia cada vez mais raivosamente cada dedo e desfiava a pele e rasgava a carne e mastigava compulsivamente enquanto saliva e sangue escorriam pescoço abaixo e sugava as cartilagens entre os ossos pois agora sentia fome e a fome dominava a boca a língua os dentes e os atos e degustou a mão toda em poucos minutos e nervos e veias e músculos desciam pela garganta mas então pensou e achou melhor parar e guardar o restante do braço pois poderia sentir fome mais tarde e só restava um pequeno pedaço de pescoço e de fígado para o jantar

Isaac Ruy

19 março 2011

De faísca a carvão

faísca
é fogo
se pega
s'espalha
na palha
no teto
parede
tapete
entorta
derrete
chamusca
carpete
madeira
vasilha
consome'a
mobília
do quarto
da sala
despensa
banheiro
ta tud' a-
-cabado
enfeite
espelh' é
fumaça
é fogo
no rabo
no gato
inteiro
só sóbr' es
queleto
nem porta-
retrato
resiste
inteiro
caderno
sulfite
nem sombra
d' escrit' ou
desenho
nem roupa
sapat'ou
comid' e
bebida
'tá tudo
tostado
queimado
roído
'tá preto
'tá cinza
'tá tudo
fodido
nem foto
lembrança
remédi'ou
brinquedo
só resta
entulho
ruína
e medo
escada
tombada
E teto
no chão
o qu'era
seguro
agor' é
carvão

Isaac Ruy

11 março 2011

Comentário

a vida da gente é como um disco... as vezes acaba docemente, as vezes para de modo distorcido por conta de um simples e pequeno risco...

Ainda bem que hoje existe o mp3...

Só esperamos a bateria acabar.

Isaac Ruy

comentário que fiz em um dos meus contos e que achei engraçado... e, como não tive nenhuma outra ideia, publiquei!


09 março 2011

07 março 2011

O homem sem chapéu

       Da janela do sobrado observava o misterioso homem de chapéu passando pela rua.
       Dada a altura em que olhava, nada via do rosto, mas o andar tranquilo e seguro do homem de chapéu esbanjava charme e elegância, alimentando ainda mais a imaginação da menina.
       Passava sempre no mesmo horário e ela estava sempre enfeitada e debruçada no parapeito a esperá-lo. 
       Ela sempre de laço e fita.
       Ele sempre de chapéu.
       Depois de semanas a imaginar coisas e escrever palavras de amor no diário escondido, criou coragem e o esperou sentada em frente ao sobrado, na calçada, como quem não quer nada - queria muito ver de perto o homem que o chapéu escondia.
       De longe avistou o chapéu e preparou o melhor sorriso, além de arregalar bem os olhos para não perder um detalhe do amado.
       Ele também a viu e, ao passar em frente moça tão bela e sorridente, não se conteve e cumprimentou-a sorrindo - e tirando o chapéu.
       Ela, sem responder o aceno, emburrou-se e entrou porta adentro indo chorar sozinha debruçada na cama.
       O cabelo em desalinho e o laço no chão.
       Antes não tivesse descido.
Isaac Ruy 

 Quadros de René Magritte