26 maio 2019
Pequena e triste história sobre o homem que sonhava em ser poeta, mas acabou escrevendo notas de obituário para jornal sensacionalista de pouca circulação, e que, cansado e desiludido, decidiu que escreveria seu último texto para, então, se sentir livre das amarras da sociedade capitalista
Comprou uma corda no cartão de crédito e se pendurou no quarto de hóspedes, mas antes, sobre o criado mudo, deixou uma nota autobiográfica escrita em versos dodecassílabos e rimas ricas.
Isaac Ruy
20 outubro 2017
FIM
A respiração para -
o susto -
caquinhos de cerâmica branca e manchas de chá de camomila e cidreira espalhados pelo carpete.
Sofá
Comerciais
Revelações
Casamentos
Bebês
Fim -
de novela.
Isaac Ruy
15 abril 2016
MACRO
Sozinha, no alto do viaduto, sentia o vento fraco embaraçar os cabelos que balançavam ao som das buzinas e motores dos carros que seguiam em manada abaixo de seus pés; sabia que pássaros silvavam, em algum lugar, ainda que o som da multidão no ponto de ônibus da esquina e os berros do vendedor ambulante de produtos importados impedissem que a melodia sibilante lhe chegasse aos ouvidos; a boca seca ainda trazia o gosto do último trago de cigarro com Coca-Cola e o ar cheirava a cidade, fumaça, urina e suor das seis da tarde. Então, olhando para baixo e reconhecendo sua própria insignificância, quase esquálida, diante da situação presente na imensidão urbana, escalou a grade de proteção até que sentisse a liberdade de não ter uma cela que a separasse do vazio, do nada; ela era o nada e o tudo naquele instante. Balbuciou algumas palavras silenciosas para si mesma e teve a certeza do que gostaria de fazer: em poucos segundos acertava, certeira, no parabrisa do caminhão que costurava o congestionamento, uma enorme gota de cuspe, bem no meio, no centro, do vidro, espalhando gotículas de espuma e escorrendo gosmenta e úmida e pegajosa pela transparência vitral, refletindo as cores de um ocaso cinza, amarelo e cinza, que iluminava e sinalizava o horizonte. Sorriu e partiu, não precisava de mais nada, percebeu que a vida na cidade é assim, a felicidade precisa estar em coisas simples.
ISAAC RUY
30 março 2016
Carta de amor, para alguém que ainda não conheci
talvez eu te encontre hoje pela manhã, na fila do pão de queijo, da padaria da esquina; talvez esbarre em você no mercado, próximo à gôndola dos repolhos roxos; talvez eu te ceda a vez na fila do banco, e nossos olhares se cruzem, e surja aquilo que chamam de chama da paixão, e nos beijemos, ali mesmo, entre a fila preferencial e a porta giratória travada por alguém que esqueceu as chaves no bolso; talvez você me feche no cruzamento, no sinal amarelo, e, depois de dois ou três palavrões e alguns gestos obscenos, eu reconheça em você a pessoa dos meus sonhos e você veja em mim a pessoa que sempre sonhou; talvez, com algumas moedas, eu te ajude a completar o valor da passagem de ônibus e sinta que você é minha cara metade, e te acompanhe até sua casa, e nunca mais saia de lá; talvez eu trombe com você na esquina e derrube seus cadernos, suas caixas ou sua sacola de laranjas e, enquanto recolhemos uma a uma, troquemos sorrisos e pedidos de desculpa, e talvez, então, eu te pague um sorvete de coco queimado que quase ninguém gosta mas, coincidentemente, é o nosso preferido, e percebamos ali, com as casquinha derretendo, pingando e escorrendo entre os dedos, que somos almas gêmeas; talvez eu te veja na saída do cinema e te siga por mais de dezessete quarteirões até sua casa, rezando para que olhe para trás e se apaixone por mim, ou que não chame a polícia; talvez eu entre numa loja de móveis e eletrodomésticos, compre uma coisa qualquer, parcelada em 24 vezes sem juros, e te veja pagando um boleto atrasado, e percebamos, num instante, que fomos feitos um para o outro, e façamos sexo, escondidos, no depósito, entre as caixas de fogão 4 bocas e refrigeradores frost free; talvez, no caixa da farmácia, você me empreste uma caneta esferográfica, azul, para que eu assine o cheque, e, depois de agradecer, eu anote meu telefone na bula do seu remédio para cólicas renais; talvez nossas mãos se toquem, sem querer, na escada rolante, e percebamos, enquanto subimos, que já nos conhecemos de vidas passadas e nos casemos uma semana depois em Las Vegas ou num cartório qualquer de uma cidadezinha do interior; talvez já dançamos e fumamos e rimos e bebemos na mesma festa, mas, como dois loucos, não conseguimos nos ver enquanto esperávamos por ajuda, desacordados, na fila do banheiro ou na calçada mais próxima, e, depois, solitários e tristes, curtimos a ressaca, cada um em sua própria casa; ou talvez nunca tenhamos nos visto pessoalmente, mas, ao ler, você reconheça que essa carta foi escrita para você, e então me deseje todas as noites enquanto sonha comigo, ou enquanto toma banhos quentes demorados pensando em mim; talvez só encontre essa carta anos depois, perdida dentro de algum livro de autoajuda, em um sebo do centro da cidade, ou talvez você nem sequer leia, mas sinta pelo perfume deixado nessa carta que fomos feitos um para o outro; talvez já esteja com outra pessoa mas quer, ou um dia há de querer, estar comigo secretamente; apenas saiba que estou aqui, estou te esperando, independente da situação ou dos pormenores, não sou exigente, não me importo com particularidades, sejamos felizes, desde que nossos ascendentes combinem, claro.
10 março 2016
Naufrágio
o som grave dos trovões estremece as estruturas do que sobrou da embarcação
gritos destroços trevas e clarões se misturam
naufrágio
a onda bravia lança as ruínas contra as pedras
e dança e balança e ondula contra a lança o corpo quase sem vida
no ápice
o silêncio
sozinho jaz
entre espuma e sangue
o tempo se reconfigura
um canto doce alivia as feridas
entorpece
inebria
a tempestade ainda precipita
mas somente notas serenas pairam sobre o oceano
então
lentamente
afunda
num mergulho rumo ao infinito
se entrega ao mar
sem medo do que virá
sabe que retorna ao útero
de sua mãe
Iemanjá
Isaac Ruy
gritos destroços trevas e clarões se misturam
naufrágio
a onda bravia lança as ruínas contra as pedras
e dança e balança e ondula contra a lança o corpo quase sem vida
no ápice
o silêncio
sozinho jazentre espuma e sangue
o tempo se reconfigura
um canto doce alivia as feridas
entorpece
inebria
a tempestade ainda precipita
mas somente notas serenas pairam sobre o oceano
então
lentamente
afunda
num mergulho rumo ao infinito
se entrega ao mar
sem medo do que virá
sabe que retorna ao útero
de sua mãe
Iemanjá
Isaac Ruy
14 maio 2014
Produzida
Produzida - hidratante, protetor, primer, base, corretivo, pó, blush, sombra, pó iluminador, lápis para sobrancelha, delineador, rímel, batom, gloss, spray, mousse, pomada, laquê; sapato com animal print de onça, Louboutin; vestido de mousseline e seda pura dourada, Alexander McQueen; casaco de veludo preto, Prada; bolsa de pedrarias, Versace; carteira, Louis Vuitton; anéis e pulseiras, Tiffany & Co.; óculos, Armani; lingerie dourada, Victoria Secrets; perfume doce, Chanel - saiu da clínica e voltou para casa desfilando os peitos novos, há tempos queria uma prótese de silicone maior. Os glúteos aumentara na semana anterior e ainda sentia leves dores ao sentar. Seu bronzeado artificial combinava com o tom loiro da tinta com que pintava os cabelos alisados e realçava as pontas claras do longo aplique que descia pelas costas. O botox inchava os lábios e o levantamento das maçãs do rosto e das pálpebras colaborava para exibir uma face sexy e sem muitas nuances de expressão, compensadas pelas lentes azuis que destacavam o olhar.
Nas redes sociais criticava as pessoas falsas e superficiais e elogiava a beleza interior.
Isaac Ruy
Nas redes sociais criticava as pessoas falsas e superficiais e elogiava a beleza interior.
Isaac Ruy
12 maio 2014
RETOMADA
Depois de deixar o blog às moscas, tentarei publicar no mínimo 1 vez por semana.
Dar uma olhada e perceber que publiquei apenas 15 vezes em 2012 e 5 ano passado me fez perceber o quanto abandonei a literatura e foquei apenas no teatro.
Não parei de escrever, afinal dramaturgicamente estou num momento muito produtivo com 3 textos prontos, várias adaptações e bastante coisa em processo.
Apesar de já estarmos no meio de maio, espero que 2014 seja um ano inspirador para o blog.
Isaac Ruy
Dar uma olhada e perceber que publiquei apenas 15 vezes em 2012 e 5 ano passado me fez perceber o quanto abandonei a literatura e foquei apenas no teatro.
Não parei de escrever, afinal dramaturgicamente estou num momento muito produtivo com 3 textos prontos, várias adaptações e bastante coisa em processo.
Apesar de já estarmos no meio de maio, espero que 2014 seja um ano inspirador para o blog.
Isaac Ruy
11 agosto 2013
Oi?
Texto que encontrei nos rascunhos do blog e que não me lembro de ter escrito...
Não devia estar são! hahaha
De dentro do buraco
o oco
o eco
o eco
o eco
o eco
o eco
o eco
o eco
ué cu
Isaac Ruy
Não devia estar são! hahaha
De dentro do buraco
o oco
o eco
o eco
o eco
o eco
o eco
o eco
o eco
ué cu
Isaac Ruy
14 julho 2013
Ostracismo
Sem conseguir um papel no cinema, tv ou teatro, vendeu suas últimas pérolas para pagar o jantar.
Isaac Ruy
Isaac Ruy
06 julho 2013
Presente de casamento
A
ex-mulher recebeu o convite com surpresa.
Rasgou
em mil pedacinhos, queimou e jogou as cinzas pela descarga.
A entrada
para a festa, guardou.
Colou
na geladeira, com imã.
No
dia marcado, compareceu.
Foi de preto, feito viúva, e fez questão de pegar o buquê.
Guardaria
as rosas para a coroa de flores do casal.
Escondida,
cortara o cabo do freio da limusine antes de entrar na igreja.
Presente
de casamento.
Não
comeu nada na festa, só bebia, sozinha, num canto -
nada
muito forte, para não perder nenhum detalhe da saída dos noivos.
Hora
de agir.
Correu,
para ver de perto o acidente.
Aguardou
na esquina, na esperança de que algo acontecesse por perto.
Acertou.
Gritos
e
latinhas, amarradas, por barbante, e arrastadas, pelo chão.
Carro
desgovernado.
Morreu
atropelada.
Sem
comer nenhum pedaço do bolo.
Pétalas vermelhas, no chão.
23 maio 2013
Árida
tão seca, que só pó lhe percorria as veias,
assim como somente o sal, das lágrimas evaporadas, lhe descia pelo rosto,
o ventre murcho, vazio,
rachaduras já lhe marcavam a pele, farelos de cabelos pendiam da cabeça,
desmoronando em poeira, uma única coisa se avistava intacta nas ruínas do corpo que existira outrora,
uma grande pedra, lembrança sólida do que já foi um coração.

Isaac Ruy
assim como somente o sal, das lágrimas evaporadas, lhe descia pelo rosto,
o ventre murcho, vazio,
rachaduras já lhe marcavam a pele, farelos de cabelos pendiam da cabeça,
desmoronando em poeira, uma única coisa se avistava intacta nas ruínas do corpo que existira outrora,
uma grande pedra, lembrança sólida do que já foi um coração.

Isaac Ruy
Tramonto
Il
regalo.
Avvolto in un brillante foglio dorato
Stava il suono più bello mai ascoltato…
La musica del carillon era tanto allegra, come il tempo delle risate e dei sogni.
Il vecchio carillon
Ancora suona le vecchie note della vecchia musica del vecchio carillon vecchio.
Il segreto.
Nascosto nell’angolo più alto della libreria
Stava il poema più bello mai letto…
I versi del libro erano tanto intensi, come il tempo degli amori e dei sogni.
Il vecchio libro di poesia
Ancora ha le stesse vecchie parole della vecchia poesia del vecchio libro vecchio.
Il tesoro
Lasciata in fondo all’ultimo cassetto
Stava l’immagine più bella mai vista.
La foto degli amici era tanto emozionante, come il tempo dei cambiamenti e dei sogni.
Il vecchio album di foto
Ancora conserva i vecchi ricordi delle vecchie foto del vecchio album vecchio.
Il vuoto.
Perduta nella più remota memoria
Stava la vita più bella mai vissuta…
L’anima di qualcuno era così unica, come il tempo delle paure e dei sogni.
La vecchia signora seduta sulla sedia
Ancora piange le vecchie lacrime della vecchia signora seduta sulla vecchia sedia vecchia.
Il niente.
Tutto è stato dimenticato…
Non ci sono più canzoni,
non ci sono più versi,
non ci sono più foto,
non c’è più l’anima,
non ci sono più sogni,
ma…
c’è ancora la vecchia vecchia.
Isaac Ruy
Avvolto in un brillante foglio dorato
Stava il suono più bello mai ascoltato…
La musica del carillon era tanto allegra, come il tempo delle risate e dei sogni.
Il vecchio carillon
Ancora suona le vecchie note della vecchia musica del vecchio carillon vecchio.
Il segreto.
Nascosto nell’angolo più alto della libreria
Stava il poema più bello mai letto…
I versi del libro erano tanto intensi, come il tempo degli amori e dei sogni.
Il vecchio libro di poesia
Ancora ha le stesse vecchie parole della vecchia poesia del vecchio libro vecchio.
Il tesoro
Lasciata in fondo all’ultimo cassetto
Stava l’immagine più bella mai vista.
La foto degli amici era tanto emozionante, come il tempo dei cambiamenti e dei sogni.
Il vecchio album di foto
Ancora conserva i vecchi ricordi delle vecchie foto del vecchio album vecchio.
Il vuoto.
Perduta nella più remota memoria
Stava la vita più bella mai vissuta…
L’anima di qualcuno era così unica, come il tempo delle paure e dei sogni.
La vecchia signora seduta sulla sedia
Ancora piange le vecchie lacrime della vecchia signora seduta sulla vecchia sedia vecchia.
Il niente.
Tutto è stato dimenticato…
Non ci sono più canzoni,
non ci sono più versi,
non ci sono più foto,
non c’è più l’anima,
non ci sono più sogni,
ma…
c’è ancora la vecchia vecchia.
Isaac Ruy
26 dezembro 2012
O último cigarro
O último cigarro.
O primeiro do dia.
O primeiro do dia.
A primeira tragada lhe provocou uma certa tontura, típica do primeiro vestígio de fumaça invadindo brutalmente o pulmão.
A última noite não lhe oferecera muitas recordações e o cheiro do último copo de whisky ainda lhe saia pelos poros. Não se lembrava da última vez em que saíra de casa - dias, semanas?
O primeiro gesto foi se sentar e soltar lentamente a fumaça, desenhando uma cortina branca pela luz fraca dos primeiros raios de sol que passavam pela janela. Os cortes, rasos, no pulso, ainda ardiam.
Cinzas no chão.
O último cigarro seria um momento para reflexão, planejamento, mudanças -
o primeiro pensamento que lhe veio a cabeça, enquanto tragava novamente, dessa vez mais pausadamente, quase um suspiro.
Fumaça
As últimas horas da noite anterior lhe vieram em flashes à mente.
As primeiras lembranças, vagas, não lhe serviram como base para um reflexão. Estranhas. Esparças. Esfumaçadas
Cinzas no chão
Melhor ir mais longe, no passado. Tragou novamente.
Primeiro, lembrou-se rapidamente da mãe. Estranho, pensou.
Fumaça
A última vez que visitara a mãe, prometera que iria mudar, parar de fumar, lembrou-se.
Melhor pensar em outra coisa. Tragou. Profundamente.
Fumaça
Cinzas.
Melhor pensar em alguma coisa, pensou.
Tragou.
Fumaça.
Cinzas
Primeiro pensar, depois refletir. Mas pensar em quê? Não havia nada para pensar.
Melhor, então, planejar, buscar mudanças, tragou.
Fumaça.
Última tragada, não há mais tempo.
Cinzas.
Melhor deixar isso pra lá, bobagem, concluiu jogando a bituca no vaso do cacto morto.
Fumaça
Melhor apanhar mais um maço na gaveta antes de sair, refletiu, talvez passasse na casa da mãe mais tarde, planejou, e não queria ficar sem cigarros pelo caminho.
Mudou o cato de lugar, talvez voltasse a viver com um pouco de sol; soprou as cinzas do chão e saiu sem protetor solar.
21 julho 2012
Voa passarinho
O pássaro colorido da avó ficava preso na gaiola.
Não cantava, simplesmente observava, tristemente, àqueles que voavam livres ou descansavam no fio de alta tensão.
O menino olhou por um tempo e coçou a cabeça desconfiado.
Pegou uma cadeira, subiu e abriu a portinhola da gaiola, vagarosamente, para a avó não acordar e descobrir a arte.
Nhééééc...
O pássaro permaneceu imóvel, no fundo da gaiola.
__Voa passarinho!
Nada.
Subiu novamente na cadeira e envolveu o pássaro com uma das mãos, cuidadosamente, para não machucar o frágil corpo da ave.
Depois de retirá-lo da gaiola, esticou os dedos.
__Voa passarinho!
Nada.
Uma ideia.
Pulou na cadeira e com um impulso forte lançou, violentamente, o pássaro o mais alto que conseguiu.
Paf!
O pássaro se chocou, violentamente, contra o gerador do poste de energia e, depois de eletrocutado, caiu esfumaçante no chão.
O garoto se aproximou do pássaro e o tocou com a ponta do tênis.
__Voa passarinho.
Nada.
Escutou os passos da avó se arrastando pelo corredor.
Escalou a cadeira, jogou o corpo negro do pássaro, rapidamente, pela portinhola da gaiola, fechou e se sentou na cadeira,
observando, tristemente, àqueles que voavam livres ou descansavam no fio de alta tensão.
A avó olhou por um tempo e coçou a cabeça desconfiada.
Abriu o portão.
Nhééééc...
__Vai brincar, menino!
Nada.
__Então vem me ajudar a dar comida pro passarinho.
11 junho 2012
Influente
O
mendigo, folheando o jornal, que lhe serviria de coberta, viu uma
notícia anunciando que a obra "A fonte", de Marcel
Duchamp, fora escolhida como a arte moderna mais influente da
história.
Perguntou
a uma mulher de óculos, sentada no ponto de ônibus, com cara de
professora, o que significava "influente". Ela não soube
explicar, ou não quis, mas o menino, que estava ao seu lado, retirou
um enorme livro da mochila e leu em voz alta, para que ele escutasse.
"Influente: que influi; que tem autoridade, prestígio; que
exerce influência sobre os demais".
O
mendigo voltou para o banco e, depois de muito observar a imagem do
"mictório assinado", que ilustrava a reportagem,
levantou-se e começou uma caminhada com passos firmes e destino
certo.
Influenciado
pela obra, pretendia assinar todos os mictórios e vasos sanitários
do banheiro público da praça.
No
caminho, já imaginava a quantos não "influenciaria" com
aquele gesto simples, mas artístico, de assinar o local onde os
homens urinam. Teria, desse modo, "prestígio, autoridade".
Chegando
ao banheiro, notou que já havia assinaturas por todo lado: paredes,
portas, chão, teto e até no espelho quebrado. De fato, não havia
nenhuma assinatura nos mictórios, mas naquele momento lhe pareceu
tão menor, insignificante e tolo assinar naquele lugar, que se
escondeu em uma das cabines e ficou ali, cabeça baixa e em silêncio,
sentindo-se envergonhado a pensar que aquele era, de fato, o lugar
mais apropriado para que assinasse.
Levantando-se
para sair, observou a quantidade de desenhos e frases escritas na
porta. Seria aquilo arte também? Provavelmente sim. Ao menos parecia
ter dado mais trabalho e ser mais artístico que a assinatura no
mictório.
Questionou-se,
refletiu e, depois de muito ler e observar a arte que o encarava,
sentou-se e, “influenciado” pelas pornografias descritas e
ilustradas na porta, masturbou-se ali mesmo.
Saiu
do banheiro, voltou para a praça, jogou a página da reportagem no
lixo, se cobriu com o restante do jornal e, feliz, refletiu que, de
fato, ele existia apenas para ser influenciado, não para influenciar
ninguém.
Isaac Ruy
02 junho 2012
Sonhos
Todos em silêncio.
Os sonhos embalam todos na casa...
os que dormem o sono dos justos
e o ladrão que furta a TV plana de LED 46 polegadas com conversor digital integrado full HD 3D/internet vídeo.
Isaac Ruy
01 junho 2012
31 maio 2012
Fênix
apenas uma fagulha...
para renascer,
brilhar o poder,
voar a liberdade
e morrer,
queimando em cinzas,
até restar
apenas uma fagulha...
para renascer,
brilhar o poder,
voar a liberdade
e morrer,
queimando em cinzas,
até restar
apenas uma fagulha...
Isaac Ruy
22 março 2012
15 março 2012
Divirta-se!
Clique sobre os quadrados musicais e divirta-se com sua composição!
Espaço para restart!
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